PĂŽr do sol

Sentado na areia da praia, vendo o pĂŽr do sol, aproxima um homem que para em minha frente e diz: Preguiçoso, levanta e faça alguma coisa. O mundo corre, e vocĂȘ aĂ­ sentado. O que vocĂȘ procura? Riqueza, fama, glĂłria??? O que vocĂȘ deseja?? Respondi: “Quero apenas que vocĂȘ dĂȘ um passo pro lado, pois estĂĄ atrapalhando minha visĂŁo do horizonte, que neste momento, Ă© tudo o que preciso…”.

coisa mal resolvida

NĂŁo gosto dessa sensação azeda de coisa mal resolvida. Comigo tudo Ă© muito limpo e exato e vocĂȘ chegou virando minha vida do avesso, me bagunçando, me dando frio na barriga, fazendo minhas pernas tremerem e meu coração desacelerar. É, eu sei que quando a gente se apaixona o coração acelera, o meu fez o caminho contrĂĄrio, devia ter percebido ali, logo ali que tinha algo errado.

A Felicidade

Tristeza nĂŁo tem fim Felicidade sim A felicidade Ă© como a pluma Que o vento vai levando pelo ar Voa tĂŁo leve Mas tem a vida breve Precisa que haja vento sem parar A felicidade do pobre parece A grande ilusĂŁo do carnaval A gente trabalha o ano inteiro Por um momento de sonho Pra fazer a fantasia De rei ou de pirata ou jardineira Pra tudo se acabar na quarta-feira Tristeza nĂŁo tem fim Felicidade sim A felicidade Ă© como a gota De orvalho numa pĂ©tala de flor Brilha tranqĂŒila Depois de leve oscila E cai como uma lĂĄgrima de amor A felicidade Ă© uma coisa boa E tĂŁo delicada tambĂ©m Tem flores e amores De todas as cores Tem ninhos de passarinhos Tudo de bom ela tem E Ă© por ela ser assim tĂŁo delicada Que eu trato dela sempre muito bem Tristeza nĂŁo tem fim Felicidade sim A minha felicidade estĂĄ sonhando Nos olhos da minha namorada É como esta noite, passando, passando Em busca da madrugada Falem baixo, por favor Pra que ela acorde alegre com o dia Oferecendo beijos de amor

Tu que pintas sonhos

Tu que pintas sonhos Poemas e abraços Pinta a paz ao mundo Desfeito em pedaços Vais pĂŽr nessa tela Amor e esperança Almas cristalinas Sem Ăłdio e vingança PorĂĄs tambĂ©m pĂŁo Justiça irmandade Casa para todos Amor lealdade E com restos de tinta Das tuas ilusĂ”es Pinta,pinta, pinta Pinta coraçÔes…

Amor Ă  primeira vista

Ambos estĂŁo convencidos que os uniu uma paixĂŁo sĂșbita. É bela esta certeza, mas a incerteza Ă© mais bela ainda. Julgam que por nĂŁo se terem encontrado antes, nada entre eles nunca ainda se passara. E que diriam as ruas, as escadas, os corredores onde se podem hĂĄ muito ter cruzado? Gostaria de lhes perguntar se nĂŁo se lembram — talvez nas portas giratĂłrias, um dia, face a face? algum “desculpe” num grande aperto de gente? uma voz de que â€œĂ© engano” ao telefone? — mas sei o que respondem. NĂŁo, nĂŁo se lembram. Muito os admiraria saber que desde hĂĄ muito se divertia com eles o acaso. Ainda nĂŁo completamente preparado para se transformar em destino para eles, aproximou-os e afastou-os, barrou-lhes o caminho e, abafando as gargalhadas, lĂĄ seguiu saltando ao lado deles. Houve marcas, sinais, que importa se ilegĂ­veis. HaverĂĄ talvez trĂȘs anos ou terça-feira passada, certa folhinha esvoaçante de um braço a outro braço. Algo que se perdeu e encontrou? Quem sabe se jĂĄ uma bola nos silvados da infĂąncia? Punhos de poeta e campainhas onde a seu tempo o toque de uma mĂŁo tocou o outro toque. As malas lado a lado no depĂłsito. Talvez acaso atĂ© um mesmo sonho que logo o acordar desvaneceu. Porque cada inĂ­cio Ă© sĂł continuação, e o livro das ocorrĂȘncias estĂĄ sempre aberto ao meio.

Quarto do suicida

VocĂȘs devem achar, sem dĂșvida, que o quarto esteve vazio. Mas lĂĄ havia trĂȘs cadeiras de encosto firmes. Uma boa lĂąmpada para afastar a escuridĂŁo. Uma mesa, sobre a mesa uma carteira, jornais. Buda sereno, Jesus doloroso, sete elefantes para boa sorte, e na gaveta – um caderno. VocĂȘs acham que nele nĂŁo estavam nossos endereços? Acham que faltavam livros, quadros ou discos? Mas da parede sorria Saskia com sua flor cordial, Alegria, a faĂ­sca dos deuses, a corneta consolatĂłria nas mĂŁos negras. Na estante, Ulisses repousando depois dos esforços do Canto Cinco. Os rnoralistas, seus nomes em letras douradas nas lindas lombadas de couro. Os polĂ­ticos ao lado, muito retos. E nĂŁo era sem saĂ­da este quarto, aos menos pela porta, nem sem vista, ao menos pela janela. BinĂłculos de longo alcance no parapeito. Uma mosca zumbindo – ou seja, ainda viva. Acham entĂŁo que talvez uma carta explicava algo. Mas se eu disser que nĂŁo havia carta nenhuma – Ă©ramos tantos, os amigos, e todos coubemos dentro de um envelope vazio encostado num copo.

Doença do amor

O amor é uma doença. Eu sinto nåuseas, febres, dores musculares. Eu acordo assustada no meio da noite. Eu choro à toa.

viu!

Eu fiz tudo certo, sĂł errei quando coloquei sentimento

Sou o que se chama de pessoa impulsiva

Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idĂ©ia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: Ă s vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que nĂŁo falham, Ă s vezes erro completamente, o que prova que nĂŁo se tratava de intuição, mas de simples infantilidade. Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E atĂ© que ponto posso controlĂĄ-los. […] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E tambĂ©m tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que Ă© um jogo infantil, do que tantas vezes Ă© uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virĂĄ sob a forma de um impulso. NĂŁo sou maduro bastante ainda. Ou nunca serei.

Saudade

Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

AusĂȘncia

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar teus olhos que sĂŁo doces Porque nada te poderei dar senĂŁo a mĂĄgoa de me veres eternamente exausto. No entanto a tua presença Ă© qualquer coisa como a luz e a vida E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz. NĂŁo te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado. Quero sĂł que surjas em mim como a fĂ© nos desesperados Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada Que ficou sobre a minha carne como nĂłdoa do passado. Eu deixarei… tu irĂĄs e encostarĂĄs a tua face em outra face. Teus dedos enlaçarĂŁo outros dedos e tu desabrocharĂĄs para a madrugada. Mas tu nĂŁo saberĂĄs que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande Ă­ntimo da noite. Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa. Porque meus dedos enlaçaram os dedos da nĂ©voa suspensos no espaço. E eu trouxe atĂ© mim a misteriosa essĂȘncia do teu abandono desordenado. Eu ficarei sĂł como os veleiros nos pontos silenciosos. Mas eu te possuirei como ninguĂ©m porque poderei partir. E todas as lamentaçÔes do mar, do vento, do cĂ©u, das aves, das estrelas. SerĂŁo a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz perenizada

alguma coisa que me era essencial

Perdi alguma coisa que me era essencial, e que jĂĄ nĂŁo me Ă© mais. NĂŁo me Ă© necessĂĄria, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que atĂ© entĂŁo me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripĂ© estĂĄvel. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas Ă© que posso caminhar. Mas a ausĂȘncia inĂștil da terceira perna me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrĂĄvel por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.

te vi calar e guardar

Acredito que vocĂȘ tambĂ©m tenha as suas mĂĄgoas escondidinhas em um canto do peito. Poucas vezes te vi chorar. Muitas vezes te vi calar e guardar. Sempre achei melhor colocar as coisas para fora, gritar, explodir, falar, conversar. Mas existe algo que me deixa muda. Nunca consegui falar sobre os meus sentimentos mais profundos para vocĂȘ. Algo me travava. Hoje resolvi dizer.