viu!

Eu fiz tudo certo, só errei quando coloquei sentimento

Sou o que se chama de pessoa impulsiva

Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade. Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. […] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou maduro bastante ainda. Ou nunca serei.

Saudade

Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar teus olhos que são doces Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto. No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz. Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado. Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado. Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face. Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada. Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite. Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa. Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço. E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado. Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos. Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir. E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas. Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz perenizada

alguma coisa que me era essencial

Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira perna me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.

te vi calar e guardar

Acredito que você também tenha as suas mágoas escondidinhas em um canto do peito. Poucas vezes te vi chorar. Muitas vezes te vi calar e guardar. Sempre achei melhor colocar as coisas para fora, gritar, explodir, falar, conversar. Mas existe algo que me deixa muda. Nunca consegui falar sobre os meus sentimentos mais profundos para você. Algo me travava. Hoje resolvi dizer.

A Sombra do Tâmega

Minha santa janela, onde eu medito E digo adeus ao sol e falo ao vento… E saúdo a aurora e leio no Infinito E sinto, às vezes, um deslumbramento! Vejo, de ti, a Serra e aquele val’, Onde aparece a imagem indecisa Dum rio de águas mortas, espectral, Que, entre sombrias árvores, desliza. E vejo erguer-se o rio cristalino, Transfigurado em sonho ou nevoeiro… E faz-se eterno espírito divino Aquele corpo de água prisioneiro. Ó láctea emanação! Ó névoa densa! Ó água aberta em asa! Ó água escura! Água dos fundos pegos, no ar, suspensa, Vestida, como um Anjo, de brancura! Água gélida e negra, que te elevas, Qual fantasma, no Azul, que desfalece! Ó claro e heróico sol, que vence as trevas, Porque será que, ao ver-te, empalidece? Ó água d’além túmulo! Água morta! Ó água do Outro Mundo! Aparições De neblina, entre as trevas… Absorta Paisagem povoada de visões… E enchendo todo o espaço de esplendores, De desmaios, de síncopes e mágoas, Diluindo tudo em místicos alvores, Ergue-se a sombra lívida das águas… Quantas vezes, de ti, boa janela, Eu lhe falo e a interrogo… E, com certeza, A tua sombra, ó água, é irmã daquela Que anda em meu coração, e é só tristeza… Ei-la a pairar na humana solidão Infinita da noite, quando as cousas São quimérica e estranha emanação De silêncios e névoas misteriosas… Ei-la que paira, ouvindo a voz da lua, E a voz louca do vento e as ansiedades Das sombras, que, na terra branca e nua, Parecem desenhar profundidades… Ei-la a pairar nas trevas que em nós deixam. Nas almas e nas pedras da lareira, Os olhos lacrimosos que se fecham E dão, em vez de luz, cinza e poeira… Bem mais do que neste ar, que se respira, Pairas na minha alma… E com teus dedos De penumbra, arrebatas minha lira, Ó Tâmega de sonhos e segredos! E vais compondo versos de neblina às árvores do monte, à dura frágua… Elegias de orvalho à luz divina, Endeixas de remanso e cantos de água… E sobes, a voar… E, num sombrio Gesto de asa, percorres as Alturas! E molhas minha fronte, aéreo rio; E, através dela, sonhas e murmuras… Ó bendita janela, entre aas janelas, Onde fala comigo a luz do luar, E a claridade viva das estrelas Que traz, e sangue, os pés de tanto andar! Bendita sejas tu, ó sempre aberta Sobre o meu coração e estes outeiros, E esta noite fantástica e coberta De espectros, de visões e nevoeiros!”