Lua e mar

 
Gosto mais da luz dessa lua minguante
Perdendo-se no céu da escuridão,
Como quando me perco em cada vão
Do teu olhar intenso e irradiante

Que tracejam linhas de sol constante,
Tocam no adubo da terra, no chão,
Toca suave e delicada sua mão,
Faz crescer a raiz do meu verso errante.

Minha alma canta assim como um rouxinol
Esses versos teus que na língua minha
São apenas pés de alguém que caminha

Incerto seguindo as luzes do farol,
Versos nessa noite que se avizinha,
Buscando por ti, nascer do meu Sol.

A PROCURA DA POESIA

 
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

Procura-se um amigo

 

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova quando
chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de
grandes chuvas e das recordações da infância.
Preciso de um amigo para não enlouquecer, para contar o que vi de belo e triste
durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade.
Deve gostar de ruas desertas, de poças d´água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim. Preciso de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já tenho um amigo.
Preciso de um amigo para parar de chorar. Para não viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas.
Que bata nos ombros sorrindo e chorando, mas que me chame de amigo, para que eu tenha a consciência de que ainda vivo.

Fim de um romance !


Acabou nosso amor, sob um pretexto fútil

Por fim chego a crer , eu já não ser útil.

As coisas que sinto, eu digo francamente

Não me dou por vencido, apesar de descontente


Detesto lamuriar as injúrias recebidas

Não costumo censurar tuas investidas

Mas desta vez, meu amor sublime e puro

Pede ao pobre coração que seja duro.


Porque um amor candente, cinzas virou

Quando a taça de cristal se esvaziou

E o vinho que nela estava azedou


E, se tão fatal poder, tem o destino

Pobre de mim, que jamais o descortino

E neste momento, sinto-me peregrino.

Qualquer um pode pagar

 
Se você quiser alguém
não esqueça de me chamar
meu preço é tão baixo quanto o seu
e qualquer um pode pagar.
Basta apenas um aceno
não mais do que um olhar insinuante
e de joelhos estou entregue
às mentiras do romance.
Enamorado por frases delicadas
invento paraísos de carícias perfumadas
e abraços de vulgares covardias.
Tudo faz e nega para ter atenção
mente, trai, rasteja no chão.
É humilhado que nosso romance caminha.

COMENTÁRIO: “Era divertido usá-la e também sentir-me usado. Os amantes se apegam tanto aos jogos! As palavras ganham o sabor do açúcar e o Destino parece um companheiro acolhedor. Admitamos por um instante apenas que as teias do auto-engano, da ilusão e da mentira não nos fossem permitidas: existiria algum suspiro sobre a terra? Olhos umedecidos pela saudade?”

Sorriso

 

Canta teu riso esplêndido sonata,
E há, no teu riso de anjos encantados,
Como que um doce tilintar de prata
E a vibração de mil cristais quebrados.

Bendito o riso assim que se desata
– Citara suave dos apaixonados,
Sonorizando os sonhos já passados,
Cantando sempre em trínula volata!

Aurora ideal dos dias meus risonhos,
Quando, úmido de beijos em ressábios
Teu riso esponta, despertando sonhos…

Ah! Num delíquio de ventura louca,
Vai-se minh’alma toda nos teus beijos,
Ri-se o meu coração na tua boca!

soneto do teu corpo

 
Juro beijar teu corpo sem descanso
Como quem sai sem rumo prá viagem.
Vou te cruzar sem mapa nem bagagem,
Quero inventar a estrada enquanto avanço.
Beijo teus pés, me perco entre teus dedos.
Luzes ao norte, pernas são estradas
Onde meus lábios correm a madrugada
Pra de manhã chegar aos teus segredos.
Como em teus bosques. bebo nos teus rios.
Entre teus montes, vales escondidos.
Faço fogueiras, choro, canto e danço.
Línguas de lua varrem tua nuca.
Línguas de sol percorrem tuas ruas.
Juro beijar teu corpo sem descanso