Uma super matéria para vocês saberem Quem foi Anne Frank?

 

Jovem alemã escondeu-se na Holanda durante 25 meses, até que a família foi descoberta e deportada para Auschwitz. Graças ao diário que escreveu, Anne Frank ainda é conhecida mundo afora, 70 anos após sua morte.

Anne Frank

Fugindo dos nazistas

Em 1933, Anne Frank e a família fugiram da Alemanha para Holanda. Para escapar dos nazistas, eles tiveram de se esconder durante a Segunda Guerra Mundial. Viveram dois anos nos fundos de uma casa em Amsterdã. Mas alguém denunciou o esconderijo, e, em 4 de agosto de 1944, a família foi descoberta, presa e deportada para o campo de extermínio de Auschwitz.

Anne Frank mit Schwester Margot. Foto:

A família

Anne (na frente, à esquerda) tinha uma irmã três anos e meio mais velha, Margot (no fundo, à direita). O pai Otto Frank tirou esta foto no aniversário de oito anos de Margot, em fevereiro de 1934, quando a família já estava na Holanda.

Anne-Frank-Haus in Amsterdam

Escondidos em Amsterdã

Em Amsterdã, o pai de Anne assumiu a filial da empresa Opekta (foto). Quando a perseguição aos judeus começou, ele montou um esconderijo nos fundos da casa. De 1942 a 1944, os quatro membros da família viveram no local junto com outros quatro judeus. No esconderijo, Anne escreveu seu famoso diário. Desde 1960, a casa é um museu.

Deutschland Anne-Frank-Zentrum in Berlin

O esconderijo

No museu em Amsterdã, os visitantes podem visitar hoje uma réplica do antigo esconderijo nos fundos da casa. Por meses, Anne dividiu um quarto apertado com o dentista judeu Fritz Pfeffer, que no diário ganha o nome “Albert Dussel”. À direita, vê-se a escrivaninha sobre a qual ela escrevia quase todos os dias.

Anne Franks Tagebuch

Diário como confidente

O diário tornou-se uma espécie de amiga e confidente de Anne, que ela batizou de Kitty. A vida no esconderijo era totalmente diferente da que a jovem levava antes dele. “O melhor de tudo é que ao menos posso escrever o que penso e sinto, senão, ficaria completamente sufocada”, diz um trecho do diário.

Deutschland KZ zweiter Weltkrieg Befreiung von Konzentrationslager Bergen-Belsen

Morte no campo de concentração

Em 30 de outubro de 1944, Anne e a irmã Margot foram levadas de Auschwitz para Bergen-Belsen, onde mais de 70 mil pessoas morreram. Após a libertação do campo de concentração sob a supervisão de soldados britânicos, caminhões transportaram as vítimas para valas comuns. Anne, que tinha apenas 15 anos, e a irmã estavam entre os mortos, em decorrência do tifo.

Grabstein Anne und Margot Frank

Vida interrompida

Em Bergen-Belsen, há uma lápide com o nome de Anne, que imaginava que a própria vida correria de maneira diferente. “Não quero ter vivido em vão como a maioria das pessoas. Quero ser útil e trazer alegria para as pessoas que vivem à minha volta e não me conhecem. Quero continuar viva, mesmo depois da morte”, diz um trecho do diário do dia 5 de abril de 1944.

Anne Frank Bücherregal der Stadtbibliothek im sächsischen Pirna

Famosa pelo diário

O sonho de Anne era ser jornalista ou escritora. Graças ao pai, seu diário foi publicado pela primeira vez em 1947, com o título “Das Hinterhaus”(“A casa dos fundos”). Depois, vieram diversas edições e traduções, e Anne tornou-se símbolo das vítimas do nazismo. “Todos vivemos com o objetivo de sermos felizes. Vivemos de maneira diferente e igual ao mesmo tempo”, escreveu em 6 de julho de 1944.

1929: Nasce Anne Frank

Em 12 de junho de 1929, nascia a menina que daria um rosto ao Holocausto. Desde a publicação de seu diário em 1947, Anne Frank é símbolo contra a intolerância. Sua paixão pessoal “humanizou” o inconcebível extermínio.

Família Frank escondeu-se dos nazistas por dois anos

O Diário de Anne Frank já foi editado em mais de 50 idiomas e vendeu, desde sua publicação em 1947, dezenas de milhões de exemplares. O livro foi adaptado para o palco e, entre 1959 e 2001, inspirou 11 filmes de cinema e TV, da Holanda a Hollywood.

Nascida em 12 de junho de 1929, a autora faleceu com apenas 15 anos de idade no campo de concentração nazista de Bergen-Belsen. Valor literário à parte, o maior mérito de Anne foi, postumamente, ter dado um rosto ao Holocausto.

Pois, se Otto Frank não houvesse decidido publicar os registros íntimos dessa adolescente, feitos durante os dois anos em que a família esteve escondida dos nazistas em Amsterdã, ela seria apenas mais uma entre os 6 milhões de judeus exterminados.

Um rosto no Holocausto

Mais do que assassiná-los, o regime nazista apagou milhões de existências, condenando os mortos ao anonimato. Isso permite que, até os nossos dias, haja quem tente não só negar a dimensão da carnificina (“Certo, mataram alguns judeus, mas 6 milhões?!”), mas também racionalizar o injustificável, procurando motivações políticas e econômicas, enfim, a “culpa” dos judeus por seu destino.

Felizmente, é quase impossível manter essa pretensa objetividade, ao ouvir de uma adolescente – que se expressa no tom singelo de uma irmã, amiga ou filha – os efeitos da campanha assassina de Hitler sobre o cidadão comum. Ao ler seu diário, nos damos conta que quem sofreu tantas frustrações, humilhações e outros atos de violência poderia ser qualquer um de nós, judeu ou não.

Thomas Heppener, da Casa Anne Frank, em Amsterdã, acredita que a menina tornou-se “um símbolo e a vítima mais conhecida dessa época”. Apesar de tudo o que já foi dito, escrito e mostrado sobre o período de 1933 a 1945 na Europa, “esse diário é a melhor forma de penetrar nas esperanças e desejos das pessoas”, afirma.

Nazistas fecham o cerco

Os Frank mudaram-se de Frankfurt para a Holanda exatamente em 1933, ano em que os nacional-socialistas subiram ao poder. Otto, pai de Anne, fundou uma firma em Amsterdã. Durante sete anos, a família levou uma vida normal e pacífica.

Esse quadro se transformou de um só golpe quando os nazistas ocuparam a Holanda, em 1940, segundo ano da Segunda Guerra Mundial. Assim como os outros judeus, a família foi sendo pouco a pouco cerceada, o acesso à escola e às piscinas públicas lhes foi cortado, e o pai de família não pôde mais gerir seus próprios negócios. Todos os judeus tinham que portar o estigma da estrela amarela em público, sob ameaça de severas penas.

Quando, em 1942, Margot, uma das irmãs, foi convocada para trabalhar no Leste Europeu, os Frank decidiram entrar para a clandestinidade. Enquanto nos escritórios e depósitos “oficiais” continuavam as atividades usuais da firma de Otto, eles passaram a habitar, juntamente com uma família amiga, as salas vazias nos fundos do prédio.

Uma escada unia as duas partes da casa, e a passagem era camuflada por uma estante móvel. Ao todo, oito pessoas passaram 25 meses nesse esconderijo, totalmente isoladas do mundo exterior. Isto só foi possível com a conivência de quatro funcionários, que traziam comida e livros, e os mantinham informados sobre os acontecimentos políticos.

“Kitty”, o confidente

Anne Frank: tom singelo de uma irmã, amiga ou filha

Um diário, denominado “Kitty”, tornou-se o confidente de Anne nesse exílio e fuga mental para as limitações do dia-a-dia. A ele, a menina confiava suas idéias e aspirações, sua opinião sobre os inevitáveis atritos interpessoais ditados pela convivência longa e forçada no esconderijo.

De forma tocante, ela falou de seu desenvolvimento físico, das relações com o pai e a mãe, e do amor. Revelou detalhes cotidianos aparentemente insignificantes, como a restrição de ir ao banheiro somente à noite, quando a firma estava fechada. Mas também narrou momentos de pavor, noites em que a capital holandesa foi bombardeada, ou a presença de estranhos na loja, que forçava os fugitivos à imobilidade quase total.

Símbolo universal contra a intolerância

Porém, em 1944, alguém – até hoje não se sabe exatamente quem – denuncia os clandestinos. Poucos dias depois, a SS revistava a firma, levando os oito embora, de início para um campo de trabalho forçado na Holanda.

Mais tarde, foram transportados num trem de carga até Auschwitz, e de lá a Bergen-Belsen, na Baixa Saxônia. Em março de 1945, poucas semanas antes da libertação desse campo, Anne e Margot morreram de tifo.

Dos oito clandestinos da Prinsengracht 263, apenas Otto Frank sobreviveu ao Holocausto. A casa onde a família se ocultou durante dois anos foi transformada em museu em 1957, recebendo uma média de 900 mil visitantes por ano, sobretudo jovens.

Ela é um monumento palpável contra o antissemitismo e outras formas de intolerância. Na África do Sul, por exemplo, Anne foi transformada num símbolo do combate ao racismo. Segundo Jan van Kooten, da Fundação Anne Frank: “Ela nunca será esquecida. Quer no Chile, no Brasil ou na Bolívia, ela é conhecida e amada em todo o mundo”.

Anne Frank morreu antes do que se pensava, aponta estudo

Pesquisadores de museu em Amsterdã afirmam que jovem judia, símbolo das vítimas do Holocausto, apresentou sintomas de tifo em janeiro de 1945 e, portanto, é improvável que tenha sobrevivido até o fim de março.

Anne Frank morreu num campo de concentração nazista um mês antes do que o que se supunha anteriormente, afirmaram pesquisadores nesta terça-feira (31/03), o 70º aniversário de sua morte, segundo a data oficialmente reconhecida.

A jovem judia provavelmente morreu no campo de Bergen-Belsen em fevereiro de 1945, aos 15 anos, afirmou em comunicado o museu Casa de Anne Frank, em Amsterdã, com base numa nova pesquisa.

A Cruz Vermelha apontara que as mortes de Anne e Margot ocorreram no campo de concentração no norte da Alemanha em março de 1945, e autoridades holandesas estabeleceram, então, 31 de março como a data oficial.

O diário escrito por Anne no período em que a família se escondeu dos nazistas durante a ocupação da Holanda foi publicado após a Segunda Guerra Mundial, tornando-se um bestseller internacional e transformando a jovem num símbolo das vítimas do Holocausto.

A nova data pouco altera o destino trágico de Anne e Margot. “Foi horrível. Foi terrível. E ainda é”, diz Erika Prins, pesquisadora da Casa de Anne Frank. No entanto, a nova data descarta a ideia de que as irmãs poderiam ter sido salvas se tivessem vivido apenas mais algumas semanas.

“Quando se fala que elas morreram no fim de março, isso dá a sensação de que elas morreram pouco antes da libertação”, diz Prins. “Isso não é mais válido.”

Anne e os demais membros de sua família mantiveram-se escondidos dos nazistas a partir de 1942, nos fundos de uma casa em Amsterdã, até que foram descobertos e deportados para a Alemanha em 1944.

Anne e Margot foram transferidas de Auschwitz para Bergen-Belsen em novembro daquele ano. Quatro sobreviventes do campo relataram que as irmãs mostraram sintomas de tifo no final de janeiro de 1945.

“A maior parte das mortes por tifo ocorre cerca de 12 dias depois que os primeiros sintomas aparecem”, aponta o novo estudo, com base no Instituto Nacional Holandês de Saúde Pública e Meio Ambiente. “Portanto, é improvável que elas tenham sobrevivido até o fim de março.”

Enquanto as datas exatas da morte de Anne e Margot seguem desconhecidas, uma sobrevivente de Bergen-Belsen, Rachel van Amerongen, conta que “um dia, elas simplesmente não estavam mais lá”.

Centro em Berlim mantém vivo legado de Anne Frank

Com auxílio de voluntários, casa na capital alemã ajuda estudantes a conhecerem a história da adolescente judia, que morreu há 70 anos num campo de concentração e ficou famosa por seu diário.

Bairro de Mitte, em Berlim: o famoso labirinto de pátios internos dos Hackesche Höfe atrai turistas com suas lojas exclusivas e cantos pitorescos iluminados de forma sugestiva, num ambiente art nouveau perfeitamente restaurado.

Alguns passos adiante, subindo a rua Rosenthaler Strasse em direção ao badalado bairro de Prenzlauer Berg, uma discreta placa ao lado de uma entrada de garagem faz os mais atentos pararem por um momento. Mas a maioria só observa de passagem o pátio cinzento, com ar de república de estudantes, paredes grafitadas, dezenas de bicicletas e onde jovens das mais diferentes nacionalidades se acotovelam.

Os estudantes que estão ali hoje vem do município de Mühlenbecker Land, Brandemburgo. Não são jovens de cidade grande. A professora tenta ganhar a atenção deles, ainda ocupados com os próprios celulares, entre risinhos e cochichos.

Uma escada maltratada, rangente, leva ao segundo andar do prédio dos fundos. No alto, abre-se uma sala de exposições inundada de luz, com muitas fotos nas paredes e umas poucas vitrines. Logo na frente está um ícone: a reprodução fiel do diário que Anne Frank (1929-1945) ganhou de presente ao completar 13 anos, com a capa de tecido xadrez vermelho e branco e a fechadura dourada.

Cópia da primeira página do famoso diário, exposta no Centro Anne Frank em Berlim

Anne Frank aqui e agora

O Centro Anne Frank de Berlim não pretende ser um museu, explica um dos guias, Emre, de 26 anos. Um total de 20 voluntários, quase todos estudantes, se encarrega de acompanhar as classes de estudantes. A maioria dos que aqui vêm tem entre 12 e 16 anos de idade e frequenta o curso extra em História ou Alemão, mas há também alunos do estudo fundamental. Afinal, o centro conta com 30 mil visitantes por ano, muitos deles do exterior.

“Quando vocês ouvem o nome Anne Frank, o que é que vem à cabeça?”, pergunta Emre. “Pode ser em relação à pessoa, ou à época em que ela viveu.” Todos escrevem avidamente as fichas que receberam.

O guia observa com olhar paciente como a agitação vai gradativamente amainando. E faz um resumo dos conceitos lançados: a maioria escreveu “diário”, outros, que ela era judia, que teve de se esconder, ou que foi perseguida.

E vem a segunda pergunta: “Vocês têm coisas que sempre quiseram saber sobre este assunto?” A reação vem imediata: “Por que Hitler detestava os judeus?”, “Como teria sido a vida de Anne no campo de concentração, se ela tivesse sobrevivido?”

Emre responde com habilidade às questões difíceis e vai sutilmente guiando os adolescentes pela história adentro. “Vocês acham que existem outros diários de adolescentes da época?” Todos olham com espanto quando ele lista a quantidade de diários escritos durante o nazismo. “Anne não foi a única. Então, por que o diário dela terá ficado tão famoso?” Ninguém sabe a resposta, mas todos estão agora envolvidos no tema.

Anos felizes: brincando com amiguinhas na caixa de areia

Interesse universal

O círculo de bancos de feltro vermelho se desfaz, a classe se divide em grupos menores, com tarefas específicas, ao longo da sala comprida, organizada como uma linha de tempo, de 1933 a 1945.

À esquerda está a história pessoal dos Frank, o quotidiano em Frankfurt, a fuga para a Holanda. À direita, o mundo político paralelo, fatos que vão das primeiras perseguições aos judeus na Alemanha nazista até os horrores dos campos de concentração.

Os escolares se aprofundam, discutindo animadamente, no mundo de imagens interpolado de páginas do diário. Anne brincando na caixa de areia em 1937; na praia com a irmã maior, Margot; com sua classe na escola montessoriana. Mais ao fundo, estão as fotos do apertado esconderijo, numa casa dos fundos em Amsterdã, onde ela e família passaram dois anos, até serem denunciados.

“Angustia-me, mais do que posso dizer, que a gente nunca possa sair, e tenho grande medo de sermos descobertos e aí fuzilados”, lê-se na parede a entrada no diário de 28 de setembro de 1942.

A concepção da mostra funciona imediatamente: os alunos não tiram os olhos dos painéis de fotografias, ninguém está mais fazendo brincadeiras. A Casa de Anne Frank de Amsterdã, organização parceira do centro berlinense, desenvolveu essa linha cronológica como uma caixa de tesouro científica, não como processamento museológico da história.

Atualmente há centros Anne Frank por todo o mundo, em Londres, Basileia (Suíça) e Nova York. A biografia da menina judia conquista seu público por toda parte, em todas as faixas etárias, não importa em que idioma.

Réplica do quarto em Amsterdã onde família Frank sobreviveu dois anos

Mensagem recebida

“Eu vou te confiar tudo, espero, como nunca pude contar a ninguém”, lê-se na entrada de 12 de junho de 1942. São frases que oscilam entre coragem e desespero, que preservaram os desejos e pensamentos mais íntimos, e que comovem até hoje.

O diário sobreviveu, a própria Anne, não – aprendem os visitantes adolescentes. Pouco depois da irmã mais velha, ela sucumbiu ao tifo no campo de concentração de Bergen-Belsen, duas semanas antes da libertação pelas Forças Aliadas.

“Vocês precisam imaginar que ela não podia tomar nem um banho de chuveiro, não tinha sapatos. No campo não havia nada para comer, a não ser pão duro como pedra e uma sopa aguada.”

Silêncio. Todos miram Em ri por um momento, chocados. Com imagens definidas, ele procura fazê-los visualizar a brutal realidade da vida das crianças judias da época. “Ela com certeza não queria morrer assim”, comenta baixinho uma das meninas à companheira do lado.

À saída, um mural com pequenas notas quadradas atrai o olhar: “Todo o respeito por você, Anne”, lê-se numa delas. “Parem com guerras. Anne Frank vive. Nunca a esqueceremos”, escreve Miguel, do Panamá. “É sempre mais fácil amar do que odiar”, afirma uma menina da Polônia.

São palavras de admiração, reconhecimento, contra a guerra e o ódio, em favor do amor. As mensagens transmitidas em Berlim chegaram a seus destinatários: Anne Frank, uma jovem que até hoje estimula os outros à coragem.

“Nós vivemos todos com a meta de sermos felizes, vivemos todos diferente, mas, na verdade, igual”, anotou ela em 6 de julho de 1944, em seu pequeno diário quadriculado. Ainda bem que ele foi preservado para a posteridade.

Memoriais do Terror

Skulptur über der Außenmauer der KZ-Gedenkstätte Dachau

Memoriais do Terror

Campo de concentração de Dachau

Um dos primeiros campos de concentração criados durante o regime nazista foi o de Dachau. Poucas semanas depois de Hitler chegar ao poder, os primeiros prisioneiros já foram levados para o local, que serviu como modelo para os futuros campos do Reich. Apesar de não ter sido concebido como campo de extermínio, em nenhum outro lugar foram assassinados tantos dissidentes políticos.

Kongresshalle auf dem ehemaligen Reichsparteitagsgelände in Nürnberg

Memoriais do Terror

Reichsparteitagsgelände

A antiga área de desfiles do Partido Nacional-Socialista em Nurembergue, denominada “Reichsparteitagsgelände”, foi de 1933 até o início da Segunda Guerra palco de passeatas e outros eventos de propaganda do regime nazista, reunindo até 200 mil participantes. Lá está atualmente instalado um centro de documentação.

Haus der Wannsee-Konferenz in Berlin

Memoriais do Terror

Casa da Conferência de Wannsee

A Vila Marlier, localizada às margens do lago Wannsee, em Berlim, foi um dos centros de planejamento do Holocausto. Lá reuniram-se, em 20 de janeiro de 1942, 15 membros do governo do “Terceiro Reich” e da organização paramilitar SS (Schutzstaffel) para discutir detalhes do genocídio dos judeus. Em 1992, o Memorial da Conferência de Wannsee foi inaugurado na vila.

Gedenkstätte Bergen-Belsen

Memoriais do Terror

Campo de Bergen-Belsen

De início, a instalação na Baixa Saxônia servia como campo de prisioneiros de guerra. Nos últimos anos do conflito, eram geralmente enviados para Bergen-Belsen os doentes de outros campos. A maioria ou foi assassinada ou morreu em decorrência das enfermidades. Uma das 50 mil vitimas foi a jovem judia Anne Frank, que ficou mundialmente conhecida com a publicação póstuma do seu diário.

 

Bendlerblock - Ehrenhof der Gedenkstätte Deutscher Widerstand
 

Memoriais do Terror

Memorial da Resistência Alemã

No complexo de edifícios Bendlerblock, em Berlim, planejou-se um atentado fracassado contra Adolf Hitler. O grupo de resistência, formado por oficiais sob comando do coronel Claus von Stauffenberg, falhou na tentativa de assassinar o ditador em 20 de julho de 1944. Parte dos conspiradores foi fuzilada no mesmo dia, no próprio Bendlerblock. Hoje, o local abriga o Memorial da Resistência Alemã.

 
Mahnmal St. Nikolai Hamburg 

Memoriais do Terror

Ruínas da Igreja de São Nicolau

Como parte da Operação Gomorra, aviões americanos e britânicos realizaram uma série de bombardeios contra a estrategicamente importante Hamburgo. A Igreja de São Nicolau, no centro da cidade portuária, servia aos pilotos como ponto de orientação e foi fortemente danificada nos ataques. Depois de 1945 não foi reconstruída, e suas ruínas foram dedicadas às vítimas da guerra aérea na Europa.

 

Sobreviventes pedem justiça no caso do “Contador de Auschwitz”

 

“Não posso perdoá-lo”: assim o sobrevivente de Auschwitz Max Eisen resume suas impressões do primeiro dia do julgamento de Oskar Gröning na pequena cidade de Lüneburg, na Baixa Saxônia. O morador de Toronto, de 86 anos, é um dos mais de 60 autores da ação coletiva contra o ex-sargento da SS, hoje com 93 anos.

Na audiência de terça-feira (21/04), Gröning reconheceu pelo menos sua responsabilidade moral no genocídio perpetrado no campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau: “Eu reconheço essa culpa moral aqui, diante das vítimas, com arrependimento e humildade. Sobre a culpa jurídica, os senhores devem decidir.”

Atividades comprometedoras

No período em que trabalhou no campo, de 1942 a 1944, ele admite ter testemunhado uma execução por gás. Entre suas tarefas constava recolher o dinheiro das malas dos detentos chegados ao campo e entregá-lo à organização paramilitar SS, em Berlim – atividade que lhe valeu a alcunha “Contador de Auschwitz” na imprensa alemã.

Malas em Auschwitz: esperança de seguir viagem

Outra atribuição de Gröning era retirar, da rampa aonde chegavam os trens, as bagagens dos designados à câmara de gás. Na visão do Ministério Público, ele ajudou, desse modo, a apagar os vestígios da matança em massa de judeus – por exemplo, os vindos da Hungria no início de 1944. Por isso, é agora acusado de cumplicidade em pelo menos 300 mil casos.

Após um dia longo, Gröning foi um dos primeiros a deixar a sala do tribunal, aparentando fragilidade ao ser levado pelos cuidadores até o automóvel. “Foi muito cansativo para ele”, comenta seu advogado, Hans Holtermann.

“Mas eu acho que ele ficou aliviado de poder falar sobre os seus atos”, diz o jurista, que declinou de opinar se considera o nonagenário suficientemente saudável para participar de todas as 27 audiências programadas.

Ignorância questionada

Gröning “mentiu à beça” no primeiro dia do processo, criticou Max Eisen. “Ele meio que deu a impressão de não estar realmente sabendo. O fato é que [Gröning e seus assistentes] ficavam lá na rampa e não havia como não saberem, já que todo o pessoal da SS morava nas mesmas barracas”, afirmou o sobrevivente.

Eisen tampouco aceita a alegação do idoso de que “estava confuso ao chegar a Auschwitz”. “Eu tinha 15 anos quando cheguei lá, e não estava confuso”, rebateu.

Os avós, a mãe e os três irmãos de Eisen foram para a câmara de gás assim que desembarcaram no campo de extermínio, hoje território polonês. Ele, seu pai e o tio foram selecionados para os trabalhos forçados. Eisen se diz enojado por o réu ter se esquivado de responder ao juiz se, com o seu trabalho na época, ele contribuíra para o extermínio dos judeus.

Max Eisen: “Eu tinha 15 anos quando cheguei a Auschwitz, e não estava confuso”

Culpa real versus “culpa moral”

“Ele tenta lidar com a própria culpa”, relativiza Eva Korr, outra ex-detenta de Auschwitz, vinda dos Estados Unidos para o julgamento na Baixa Saxônia. “Ele poderia ter se escondido nas sombras, como milhares de outros nazistas. Poucos tiveram a coragem de ir a público.”

Assim como parte dos autores do processo, o representante jurídico de 31 deles, Thomas Walther, se revela decepcionado com o depoimento de Oskar Gröning: para os seus clientes, a mera admissão de “culpa moral” soa como um deboche do que realmente aconteceu.

“É preciso entender que os meus clientes têm estado convencidos, pelos últimos 70 anos, da culpa real de um crime extremamente profundo”, afirmou o jurista. “Falar em ‘culpa moral’ diante do assassinato dos seus pais: como é que você se sentiria?”

Tensão no julgamento do “Contador de Auschwitz”

 

Processo começa com debate histórico acalorado do lado de fora do tribunal na pequena cidade de Lüneburg. Enquanto sobreviventes enfatizam importância do julgamento, antifascistas e neonazistas se confrontam.

Houve confusão na longa fila diante do prédio em Lüneburg onde, às 9h30 desta terça-feira (21/04), se iniciou aquele que pode ser o último processo relativo ao Holocausto. O réu é Oskar Groning, de 93 anos, apelidado pela imprensa alemã o “Contador de Auschwitz”.

O espaço na sala do tribunal, para apenas 60 espectadores, foi ocupado por cerca de 40 participantes de um grupo antifascista local, que já haviam chegado às 6h00 da manhã. Sua intenção principal foi assegurar assentos para os parentes dos coautores da ação coletiva, 65 sobreviventes do campo de extermínio Auschwitz-Birkenau.

Contudo, a segunda meta era garantir que “essa gente” não entrasse, revela Henryk Kuzbik, um dos ativistas, apontando para um grupo de dez neonazistas, que só conseguiram lugar no meio da fila. “Seria insuportável para os familiares ter essa gente aqui. E queríamos mostrar que não há só nazistas.”

O líder informal dos extremistas, Thomas Wulff, que diz pertencer a um “movimento nacionalista”, aproveita a ocasião para travar um acalorado debate sobre a história da Alemanha e o Holocausto com os jornalistas presentes.

“Isso é um julgamento atrasado de vingança pelos Aliados. Não há defesa neste país”, acusa. Segundo ele, Gröning “foi uma vítima da sua época, e agora é uma vítima do sistema judiciário alemão”. Wulff acrescenta que ele próprio foi condenado a pena condicional de um ano e meio “por fazer perguntas”.

Neonazismo se faz presente

Muitos alemães vieram até o Tribunal Regional de Lüneburg para demonstrar sua solidariedade com as vítimas do genocídio perpetrado pelo regime de Adolf Hitler. “É muito importante que esse julgamento esteja acontecendo agora”, observa Meline Dumrese, uma das fundadoras da organização que pleiteou a construção do Memorial do Holocausto em Berlim, em 2005.

Os neonazistas foram acompanhados por Ursula Haverbeck, viúva de um pastor que foi membro da liderança do Partido Nacional-Socialista. Já tendo sido multada várias vezes por negar o Holocausto, ela aparece num vídeo, postado na segunda-feira no YouTube, condenando o processo e convocando outros opositores a assisti-lo.

Além disso, Haverbeck distribuiu um panfleto intitulado “Assassinato em massa no campo de concentração de Auschwitz?”, onde questiona os dados históricos sobre o Holocausto e propõe estimativas mais baixas para o número de judeus executados – um ato considerado ilegal na Alemanha.

Oskar Gröning pretendia combater falsa argumentação de negadores do Holocausto

Negação do Holocausto

Na aglomeração na pequena cidade de Lüneburg, na Baixa Saxônia, Kuzbik e seus companheiros entoam brevemente “Fora nazistas!” e ostentam uma bandeira de Israel. Wulff rebate com “Israel foi fundado por terroristas”. A polícia inicialmente mantém separados os dois grupos, mas acaba ordenando que os extremistas de direita deixem o local.

A ironia desse incidente é que Gröning está sendo julgado por ter ido a público na década de 80, justamente com o fim de rebater os negadores do Holocausto. Ele foi um dos poucos ex-servidores do regime nazista a tomar tal atitude.

Seu testemunho sobre as próprias ações – tanto para os promotores como em extensas entrevistas dadas em 2005 à revista Der Spiegel e outros veículos – forneceram provas substanciais contra diversos antigos oficiais nazistas. Entretanto, essas mesmas informações estão sendo agora empregadas na ação contra ele.

Importância para os sobreviventes

Numa coletiva de imprensa nesta segunda-feira, a húngara Eva Pusztai-Fahidi, sobrevivente do campo de Auschwitz e coautora do processo, explicou o que a iniciativa jurídica representa para ela, pessoalmente:

“Nos 70 anos desde que saí de Auschwitz-Birkenau, uma das coisas mais importantes que me aconteceram foi esse julgamento. É muito importante eu poder vivenciar o julgamento de um homem da SS que serviu em Auschwitz. A questão não é a punição, mas sim o veredicto.”

Para outra sobrevivente, Hedy Bohm, “o importante é que o julgamento esteja acontecendo”. “Meu testemunho vai ser dar um pouco uma voz a meus pais e à minha família, que não estão aqui”, comentou.

Apesar de terem sido banidos do tribunal no primeiro dia do processo, os neonazistas estão sendo esperados também nos dias subsequentes. “Mas nós também vamos estar aqui”, promete Kuzbik. “Vamos estar aqui a cada dia do julgamento.”

Estão programadas 27 audiências em Lüneburg, sendo o veredicto previsto para o fim de julho.

“Contador de Auschwitz” pede perdão

Oskar Gröning, de 93 anos, se declarou cúmplice moral pela morte de milhares de judeus no campo de concentração durante a Segunda Guerra.

Engraçado que ele ainda continua vivo e ainda tem o cinismo de pedir perdão as pessoas que morreram poderia ter feito a mesma coisa que ele fez  com aqueles judeus,mais infelizmente as coisas não sai do nosso jeito,recomendo a leitura da próxima matéria.

A arte e os horrores de Auschwitz

Os artistas esquecidos

Enquanto a chamada “arte degenerada” dos artistas perseguidos pelo nazismo desperta atenção, quase ninguém conhece o trabalho dos artistas que estavam em campos de concentração. Pintores como Waldemar Nowakowski (foto) estão quase esquecidos. Por isso a importância do livro e da exposição “A morte não tem a última palavra”, a ser aberta no prédio do Bundestag em Berlim, a partir de 27 de janeiro.

 

Em Auschwitz, apelos para que o Holocausto não seja esquecido

Cerimônia pelos 70 anos da libertação do campo de concentração é marcada por pouca política e por pedidos dos sobreviventes, em sua maioria já octogenários, para que gerações seguintes não esqueçam os horrores da guerra.

Sobreviventes chegam para celebração dos 70 anos

Na localidade de Oswiecim, no sul da Polônia, cerca de 200 sobreviventes de Auschwitz e familiares reuniram-se com líderes mundiais e autoridades judaicas, na tarde desta terça-feira (27/01), para celebrar os 70 anos da libertação do campo de concentração pelas tropas soviéticas.

A cerimônia se realizou na grande tenda branca erguida sobre o edifício de tijolos na entrada de Auschwitz II-Birkenau, parte do complexo hoje transformado em museu. Em meio a campos cobertos de neve, os trilhos de trens – que traziam judeus, ciganos, homossexuais, oposicionistas políticos e outros condenados de todas as partes do continente – estavam iluminados em tons dourados.

À sombra da guerra na Ucrânia e do recrudescimento do antissemitismo na Europa, essa pode ter sido uma das últimas oportunidades ver reunido um número representativo de remanescentes do Holocausto: os mais jovens entre eles já são septuagenários. No 60º aniversário da libertação de Auschwitz, em 2005, compareceram 1.500 sobreviventes.

“Quantas eternidades se pode suportar?”

David Wisnia, ex-detento de Auschwitz de 88 anos, foi convidado para entoar uma prece memorial em hebraico. Quando criança, ele cantava no coro da Grande Sinagoga de Varsóvia, demolida pelos nazistas em 1943.

Steven Spielberg na cerimônia em Oświęcim

“É algo quase impossível de a mente humana compreender”, contou sobre o Holocausto, “Rogo a Deus que sejamos capazes de aprender algo com isso, enquanto seres humanos.”

Outro sobrevivente de origem polonesa, Roman Kent, apelou, entre lágrimas: “Não queremos que o nosso passado se torne o futuro de nossos filhos!”

No campo, narrou o nonagenário, as incessantes humilhações e atos de violência transformavam os minutos em dias, os dias em meses, os meses em eternidades: “E quantas eternidades um ser humano pode suportar em uma vida?”

Autodeterminação nacional, ontem e hoje

Participaram da homenagem dirigentes de Alemanha, França, República Tcheca, entre muitos outros. O presidente da Polônia, Bronislaw Komorowski, foi o único político a tomar a palavra.

Ele descreveu Auschwitz como o lugar onde a civilização humana foi destruída, onde os nazistas instalaram uma bárbara indústria da morte. Dessa memória cresce o dever de confrontar, hoje, todas as formas de violência e racismo, advertiu.

Patriotas russos protestam contra ministro polonês: “Schetyna, pergunte aos avós sobre os eventos de 1945”

Durante a Segunda Guerra Mundial, foram assassinadas no campo de extermínio Auschwitz II-Birkenau mais de 1,1 milhão de pessoas, a maioria judeus. Quase 40% dos prisioneiros registrados eram de nacionalidade polonesa.

Komorowski ressaltou o fato de terem sido soldados da União Soviética a libertar o campo de extermínio em 27 de janeiro de 1945, expressando sua gratidão e reconhecimento àqueles que tudo fizeram para salvar os últimos prisioneiros, quase mortos pela fome, doenças e maus tratos.

Porém, o chefe de Estado não se referiu exclusivamente ao passado: “Lembremos ao que leva a violação das leis internacionais sobre autodeterminação das nações.” Para os presentes, uma inconfundível alusão ao conflito em curso na vizinha Ucrânia, com a participação da potência regional Rússia.

Paralelamente, uma declaração do ministro polonês do Exterior, Grzegorz Schetyna, abalou as bases da história aceita, servindo para provocar muitos patriotas russos e acirrar o conflito em torno do conflito: segundo Schetyna, em vez do Exército Vermelho, teriam sido tropas ucranianas a libertar Auschwitz-Birkenau em 1945.

Combate intensificado à discriminação na Europa

Para o presidente francês, François Hollande, a ocasião foi especialmente significativa, menos de três semanas após os ataques de terroristas islâmicos que mataram 17 pessoas em Paris, entre os quais quatro frequentadores judeus de um mercado kosher.

Presidente François Hollande (centro-direita) e representantes judaicos no Memorial do Shoá em Paris

Antes, no Memorial do Shoá (Holocausto) em Paris, o chefe de Estado socialista se dirigiu à comunidade judaica do país, a maior da Europa, com 550 mil membros. “Vocês, franceses de fé judaica, o seu lugar é aqui, no nosso lar: a França é o seu país”, assegurou.

Segundo um estudo divulgado nesta terça-feira, os atos de violência antissemita na França aumentaram 130% em 2014, em relação ao ano anterior. Hollande anunciou para fevereiro a apresentação de um programa nacional de combate ao antissemitismo e ao racismo. Estão previstas tanto a manutenção de um nível elevado de segurança, quanto medidas severas contra a desinformação e a propaganda na internet.

Auschwitz na identidade alemã

A cerimônia no sul da Polônia contou com a presença de figuras como o cineasta americano Steven Spielberg (A lista de Schindler), com projeção internacional na preservação da história e da causa judaicas.

Ronald Lauder, presidente do World Jewish Congress, instou os políticos e homens de Estado presentes a combaterem com mais decisão a onda de discriminação e perseguição que volta a eclodir: “Setenta anos depois da libertação de Auschwitz, sopra uma nova tempestade de antissemitismo sobre a Europa.”

Horas antes, o presidente da Alemanha, Joachim Gauck afirmou que “não há identidade alemã sem Auschwitz”, durante uma sessão solene do Parlamento em Berlim, com a presença de diversos sobreviventes.

O político insistiu que os crimes do nazismo não sejam esquecidos: a lembrança do Holocausto faz parte da história nacional, e obriga todos os cidadãos a “protegerem e preservarem aquilo que é humano”.

Roman Kent, sobrevivente polonês, apela em nome do futuro

Putin, ausência marcante

Uma ausência que se fez notar em Oswiecim foi a do presidente russo, Vladimir Putin, cujo país foi representado por Serguei Ivanov, chefe de gabinete da presidência. O presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, por sua vez, esteve presente.

Medidas controversas do Kremlin – como a anexação da península da Crimeia, em março último, e o apoio documentado aos separatistas pró-Moscou no leste e sudeste da Ucrânia, com pessoal e munição – têm contribuído para que o estado das relações Rússia-Ocidente seja o pior desde o fim da Guerra Fria. A Polônia conta entre os críticos mais ferrenhos da política russa para a Ucrânia.

Em resposta à indignação de certas personalidades russas, por Putin não ter sido convidado, o Memorial de Auschwitz-Birkenau, organizador do evento, argumentou que não houve solicitações específicas aos chefes de Estado ou de governo, estando livre para comparecer quem quisesse.

Fontes internas indicam, contudo, que o governo polonês realmente preferiu não encorajar a participação do chefe do Kremlin na cerimônia, por estar consciente das consequências políticas de sua presença.

“Seria difícil imaginar como se receberia o presidente da Rússia nesta situação”, admitiu o ministro da Justiça da Polônia, Cezary Grabarcyk, à rádio polonesa ZET. Apesar de dados confirmados por entidades como a Otan e das sanções internacionais em vigor, Putin segue negando qualquer interferência na crise ucraniana.

Auschwitz para nunca ser esquecido

Chaminés do Campo de Concentração Auschwitz. Judeus eram queimados quase 24 horas por dia. “Esse era o único modo de sair de lá.”

Auschwitz sintetiza horror do Holocausto em uma palavra

Uma Alemanha onde não haja a lembrança do Holocausto é hoje inconcebível. Mas nem sempre foi assim: décadas se passaram até que as imagens das atrocidades nazistas entrassem na memória coletiva da nação.

Soldados soviéticos retiram um jovem de 15 anos do campo de concentração de Auschwitz, em 1945

Às vezes basta uma palavra e tudo está dito. Auschwitz incorpora todo o Holocausto, os 6 milhões de judeus mortos, os milhões de seres humanos brutalmente assassinados pelos nazistas entre 1933 e 1945.

Também se poderia dizer: basta uma imagem, e o horror está de novo presente: o portão do campo de extermínio Auschwitz-Birkenau, diante dele, os trilhos ferroviários. A memória coletiva completa o quadro: os trens – sim, vagões de gado – cheios de gente, de crianças, de mulheres, de homens jovens e anciãos, chegando após dias, por vezes semanas de viagem, sem comida nem água. Nos olhos, ainda um vislumbre de esperança.

Esquerda ou direita

Papa Francisco recebe sobreviventes de Auschwitz em 07/01/2015

A maioria dessas pessoas sabia que a morte as esperava em Auschwitz. Não raramente, ela já se anunciava na plataforma entre os trilhos duplos, a assim chamada “rampa”, na figura do médico do campo, Josef Mengele – mais um nome que desencadeia associações imediatas.

A sobrevivente Esther Bejarano, de 90 anos, recorda: “O Dr. Mengele ficava na nossa frente e aí fazia um gesto de mão, apontando com o polegar para um lado ou para o outro. Para a esquerda, a pessoa ainda tinha um prazo antes da execução; para a direita, queria dizer: ‘Você vai para a câmara de gás.'”

Mais de 1 milhão de pessoas foram mortas nesse campo de concentração, hoje em território polonês. Cerca de 90% eram judeus, empurrados para as câmaras de gás logo após a chegada. Mas também poloneses, nômades das etnias sinto e rom, homens, mulheres e crianças de toda a Europa.

Memória mantida viva

Mas não se assassinava apenas em Auschwitz: também Majdanek, Treblinka, Belzec e Sobibor eram campos de extermínio, onde se matava com a eficiência e simplicidade de uma linha de montagem numa fábrica.

E, também em Ravensbrück, Dachau, Buchenwald, Mauthausen e muitos outros campos, os detidos morriam sistematicamente, quer em decorrência do trabalho excessivo ou das torturas, quer por fome ou fuzilamento. Isso sem falar nas execuções em massa, como na ravina Babi Yar, em Kiev, ou no bosque de Paneriai, próximo a Vilnius.

Ainda assim, Auschwitz simboliza todos esses lugares, pois lá o homicídio industrializado dos nazistas atingiu o seu ápice. Em nenhum outro lugar tantos foram assassinados em tão pouco tempo e de forma tão pérfida. Dos crematórios, a fumaça subia dia e noite: depois de uma morte horrenda, por sufocamento com o gás tóxico Zyklon B, os corpos eram incinerados.

Também essa é uma das imagens que nunca sairão da mente de Esther Bejarano, testemunha ocular das atrocidades de Auschwitz. E que ela não deixará que se extingam: assim como muitos outros sobreviventes do Holocausto, ela não se cansa de relatar os crimes que presenciou, em escolas e talk-shows. No início de 2015, um grupo deles foi recebido pelo papa Francisco no Vaticano.

Judeus húngaros aguardam transporte para campo de concentração em 1944

Anos de “esquecimento”

Mas nem sempre os sobreviventes do Holocausto mereceram tanta atenção. Em seguida à Segunda Guerra Mundial, ninguém na Alemanha queria admitir ter escutado ou visto qualquer coisa, nem ter sentido algum cheiro fora do comum.

Nem mesmo os que moravam a apenas poucos minutos a pé do campo de Bergen-Belsen, na região de Hannover. Mas o Exército do Reino Unido os fez visitarem o campo de concentração, após a libertação, para que vissem com os próprios olhos os montes de cadáveres e os prisioneiros subnutridos, antes esqueletos do que seres vivos.

Os britânicos filmaram o local, com a intenção de produzir um grande documentário, que também incluiria imagens feitas pelos militares russos depois de libertar Auschwitz. O famoso cineasta Alfred Hitchcock foi encarregado de examinar o material e começou a trabalhar com ele.

Mas, naquele início de Guerra Fria, os aliados britânicos e americanos preferiram não confrontar excessivamente os alemães com sua culpa, e o projeto foi engavetado. E passaram-se décadas até que os horrores de Auschwitz fossem publicamente expostos e discutidos na Alemanha.

Processos de Frankfurt

Os processos de Auschwitz, realizados em Frankfurt entre 1963 e 1965, acarretaram uma virada na confrontação dos alemães com os crimes dos nazismo – e com a própria culpa. Pela primeira vez ouvia-se os sobreviventes relatarem detalhadamente sobre as atrocidades e o sistema do campo de extermínio.

Lá não se visava apenas o homicídio em escala industrial, mas também a exploração total da mão de obra e dos recursos das vítimas. Conectado a Auschwitz I (onde se mantinham sobretudo presos políticos) e a Auschwitz-Birkenau (uma gigantesca área onde se concentravam tanto as barracas dos prisioneiros quanto as câmaras de gás e os crematórios), estava Auschwitz III ou Monowitz, terreno industrial em que firmas como a I.G. Farben faturavam.

Além do ouro dental e das roupas dos executados, até seus cabelos eram transformados em dinheiro para os cofres alemães. As montanhas de cabelos, sapatos e óculos em Auschwitz são outra imagem gravada na memória coletiva da nação.

Ao lado das reportagens diárias da imprensa, em 1965 o dramaturgo Peter Weiss, autor de Marat-Sade, cuidou para que a discussão sobre os processos de Frankfurt se mantivesse, mesmo após seu fim. A peça teatral O interrogatório, Oratório em 11 cantos desencadeou indignação, ao confrontar os depoimentos das testemunhas anônimas com os dos acusados que elas citavam nominalmente.

Cena de “Shoah”, de Claude Lanzmann

Força da realidade e da ficção

No fim da década de 70, o horror dos crimes nazistas chegou às salas de estar alemãs na forma de uma minissérie americana de TV. Dirigida por Marvin J. Chomsky, Holocausto traçava o destino da família judaico-alemã Weiss, tendo a atriz Meryl Streep no papel principal da esposa não semita.

A transmissão de seus quatro episódios suscitou entre muitos jovens alemães a discussão sobre até que ponto seus pais sabiam do “desaparecimento” de seus vizinhos judeus.

Com mais de nove horas de duração, o documentário de Claude Lanzmann Shoah, de 1985, foi outro choque para a consciência alemã. Pela primeira vez, um diretor de cinema ia com os sobreviventes dos campos de concentração até o palco de seus horrores, encorajando-os a relatar o que haviam vivenciado.

“Clava de Auschwitz”

Em seu discurso ao receber o Prêmio da Paz do Comércio Livreiro Alemão, em 11 de outubro de 1989, para a surpresa de muitos o autor Martin Walser denunciou o que percebia como instrumentalização do Holocausto.

Martin Walser: contra “clava moral”

“Mas quando sou confrontado todos os dias com esse passado na mídia, noto que algo dentro de mim se revolta contra essa exibição incessante de nossa vergonha. Em vez de ficar grato […], eu começo a olhar para o outro lado.” E prosseguiu: “Auschwitz não se presta a se tornar rotina de ameaça, meio de intimidação sempre a postos, ou clava moral, ou até mero exercício de dever.”

Assim cunhou-se a expressão “clava de Auschwitz”, gerando clamor crítico. O Conselho Central dos Judeus da Alemanha acusou Walser de “incêndio intelectual culposo”. Na realidade, a intenção do autor não fora, em absoluto, relativizar. Mas ele colocara uma questão difícil: como não esquecer o horror – e também a culpa – de Auschwitz, e ao mesmo tempo não minimizar o poder simbólico dessa palavra, ao evocá-la de forma leviana, rotineira demais?

Auschwitz está arraigado na memória cultural dos alemães, as imagens são presentes. Literatura, arte e cinema podem continuar cuidando para que elas persistam para a próxima geração, quando não houver mais testemunhas diretas. Só é preciso olhar.

O filme que os britânicos iniciaram por ocasião da libertação de Bergen-Belsen e que Hitchcock começou a montar foi agora concluído. Ele se chama Night will fall (a noite vai cair). Não é sempre fácil assisti-lo. E, no entanto, é preciso.

Irei publicar algumas matérias para lembra de como foi o campo de concentração de Auschwitz