A mostra em SP que reúne apenas obras de artistas negros

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Quando vamos a uma exposição de arte, raramente nos damos conta da cor da pele da pessoa que elaborou tais obras. Na verdade, isso sequer passa pela nossa cabeça e, no geral, pouco sabemos sobre os artistas negros que rodeiam o país há centenas de anos. A Pinacoteca de São Paulo rompe este paradigma e dedica uma mostra somente a artistas afrodescendentes presentes em seu acervo, trazendo à tona uma reflexão sobre reconhecimento, identidade e história.

Celebrando os 110 anos da instituição, a exposição “Territórios: Artistas Afrodescendentes no Acervo da Pinacoteca”, em cartaz na Estação Pinacoteca, visa valorizar o legado destes brasileiros que deixaram e ainda deixam uma marca importante dentro das artes plásticas, embora não sejam associados de imediato a esta área da cultura. Assim representam o lado criativo, estético, emocional, social e étnico de um povo que desde seus primórdios luta contra a discriminação, o julgamento e o esquecimento.

São 106 obras entre pinturas, gravuras, desenhos, esculturas e instalações que traçam perfis diferentes da produção artística de afrodescendentes no Brasil do século XVIII até hoje. O artista Rommulo Vieira Conceição participa com a instalação Estrutura Dissipativa / Gangorra, onde coloridas estruturas de ferro simulam um playground infantil, incluindo duas gangorras. Embora seja tentador, não se pode interagir com nenhuma das obras nesta ocasião.

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Outro destaque é a obra Antes que Eu Me Esqueça, de Flávio Cerqueira, onde um garoto se reconhece no espelho, talvez uma metáfora de como descobre sua própria origem e veia africana. Já  Arthur Timótheo da Costa, falecido em 1922, aparece num autorretrato produzido em 1908, mas poucos conhecem sua imagem como a de Van Gogh, por exemplo. Esta foi, inclusive, a primeira obra de um artista negro adquirida pela Pinacoteca, em 1956.

Um dos pontos altos da mostra,  são as litografias fantásticas do artista Octávio Araújo, feitas em meados de 1970. Não sei como ou por que seu trabalho não é tão conhecido quanto o de outros artistas surrealistas importantes ou até de negros que se destacam no imaginário coletivo e na arte barroca, como Aleijadinho e Mestre Valentim, também presente na mostra.

Ele ainda levanta outras questões dentro do meio artístico, que é o debate sobre a não-formação de uma elite artística de veias africanas consolidada no Brasil em período algum, e ainda a suposta “falta de estudo” – motivo de desvalorização dos mesmos – por parte de muitos artistas negros que sequer tiveram chances de realizá-lo. No caso de Araújo, que já foi auxiliar de Candido Portinari, frequentou a Escola Nacional Superior de Belas Artes em Paris e o Gabinete de Estampas do Museu du Louvre.

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Há também telas de Estevão Silva, o primeiro pintor negro a se formar na Academia Imperial de Belas Artes, considerado um dos melhores pintores de natureza morta do século 19. Enquanto isso, Miguelzinho Dutra era um bom observador e revela seu talento e estudo em cópias de ilustrações do artista francês Charles Le Brun, além de retratar São Paulo em suas obras.

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A sala Matizes Africanas exibe esculturas geométricas de Rubem Valentim, que carregam consigo símbolos dos cultos afro-brasileiros. Nomes como Antonio Bandeira, Jaime Lauriano e Rosana Paulino também se espalham em artes pela Estação Pinacoteca. Aconselho que os visitantes leiam os textos dispostos nas paredes para contextualizar o que irão ver.

A exposição não seria possível sem o artista Emanoel Araújo, que dentre outras funções fundamentais foi o primeiro diretor negro da Pinacoteca entre 1992 e 2002, responsável por adquirir tais obras e, mais tarde, criar o Museu Afro Brasil em 2004. Destacando a importância deste trabalho da melhor maneira, que é reunindo e expondo as obras, o atual diretor Tadeu Chiarelli pretende dar continuação ao acervo que traz à tona o debate da situação social e a identidade do africano no país e seu papel dentro das artes.

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Todas as fotos © Brunella Nunes

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