Dunas e lagoas na costa do Maranhão

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No litoral do Maranhão, no Nordeste do Brasil, as dunas têm formato de lua crescente e, vistas do céu, lembram lençóis brancos expostos para secar sob o sol em tarde de ventania. É uma terra mágica, onde cardumes de peixes prateados nadam em lagoas que se formam depois das chuvas, pastores conduzem rebanhos de cabras sobre montanhas de areia branca, em caravanas bíblicas, e pescadores saem para enfrentar o mar tempestuoso sob a orientação das estrelas e de fantasmas de velhos naufrágios.

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“A sensação é a de estar numa espécie de mundo paralelo, onde elementos distintos da natureza se encontram, com montanhas de areia e lagoas, rios e oásis de vegetação, tendo o mar como moldura ao fundo”, descreve a analista ambiental Carolina Alvite, ex-diretora do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, uma área de 155 mil hectares demarcada em 1981 para proteger o ecossistema das dunas e a vegetação de restinga no entorno. No coração do deserto, aos olhos de forasteiros entorpecidos pelo verde ou azul intenso das lagoas, a sensação é a de que o mar das Bahamas ou das Maldivas foi, num passe de mágica, transportado para o meio do Saara.

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Este é um deserto onde as miragens são reais.

Há 27 anos, o geógrafo Antônio Cordeiro Feitosa, professor da Universidade Federal do Maranhão, tenta entender a singular dinâmica dos Lençóis, caminhando pelas areias com seus alunos, medindo a direção e a velocidade do vento, a temperatura e a umidade do ar e da superfície do solo.

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As dunas fixas mais antigas, descobriram os pesquisadores, foram formadas até 12 mil anos atrás, e nos contam histórias de oscilações climáticas em que períodos mais secos foram intercalados por outros mais úmidos. “Os Lençóis são, acima de tudo, um palco de processos sedimentares raros e intensos, pelos quais a paisagem é transformada radicalmente por rigorosos ciclos sazonais”, conta Cordeiro.

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Todas as respostas vêm da água. A própria areia vem da água. A marcha de acontecimentos naturais que alimenta o cenário insólito começa quase 100 quilômetros a leste, no delta do rio Parnaíba, cujo leito caudaloso carrega para o mar muita areia e argila desde o interior do continente – outros rios, como o Preguiças, são coadjuvantes no mesmo trabalho.

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Essa massa de sedimentos é depois empurrada por correntes marinhas que fluem no sentido leste-oeste, e a maior parte dela acaba depositada nos 70 quilômetros da orla dos Lençóis, na área do parque nacional.

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Aqui, assim como em uma vasta faixa de costa no norte do Brasil, as marés são altas, vão a 7 ou 8 metros, e desenham praias muito largas e planas. Entra em ação a seguir um vento que sopra sem trégua na direção nordeste, sobretudo na estação seca, entre julho e dezembro, e se encarrega de conduzir a areia de volta ao interior por uma distância de quase 50 quilômetros, esculpindo dunas a perder de vista, cujas maiores podem alcançar 40 metros de altura. Grande parte delas é de um tipo conhecido como barcana, em formato de meia-lua, em que a parte convexa é sempre voltada para o vento.

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Seria um deserto típico, arenoso e estéril, de horizontes amplos e luzes ofuscantes, mas então chove, e muito. A cada ano, entre janeiro e junho, a região recebe cerca de 125 centímetros de chuva, ao passo que, por definição científica, desertos têm precipitações que não superam 25 centímetros por ano. Um subsolo argiloso facilita a retenção da umidade e, em alguns lugares, o desenvolvimento de vegetação perene – há dois oásis habitados no interior dos Lençóis. Quando as areias ficam saturadas, liberam água para o lençol freático. Como a argila não permite a percolação da água para zonas mais profundas, a drenagem ocorre horizontalmente para aflorar em depressões entre as dunas, formando as lagoas.

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Algumas têm mais de 90 metros de comprimento e até 3 metros de profundidade. No início de julho, época em que estão mais cheios, esses corpos d’água chegam a interligar-se entre eles e com alguns rios que avançam pelas dunas, como o Negro. Com isso, os peixes podem migrar para as lagoas, onde se alimentam de outros peixes ou de larvas de insetos depositadas na areia.

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Certas espécies, como a traíra, passam toda a estação seca dormentes na lama, só despertando quando recomeçam as chuvas. Na seca, com a evaporação causada pelo calor equatorial, a água pode baixar 1 metro por mês, até que a maioria das lagoas seca completamente, à espera da volta das águas. “Na verdade, pelos critérios técnicos mais rigorosos, os Lençóis não são uma região desértica”, diz Cordeiro.

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Tal como as dunas e as lagoas, a gente dos Lençóis muda de acordo com a época do ano – além da população dos vilarejos existentes no entorno do campo de dunas, cerca de 90 homens, mulheres e crianças vivem no interior do parque, nos oásis de Queimada dos Britos e Baixa Grande. Na estação seca, os nativos criam galinha, cabra e vaca; cultivam mandioca, feijão e caju; e extraem a fibra de buriti e carnaúba, as palmeiras generosas que brotam nas margens dos alagados.

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Quando chegam as chuvas, a piscosidade das águas aumenta, assim como o plantio se torna mais árduo. Muitos partem para o litoral, onde vivem da pesca em cabanas improvisadas na praia deserta. Ali salgam e secam a carne do camarupim e de outras espécies para intermediários que, depois, vendem o pescado nas cidades.

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O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, que administra os parques nacionais brasileiros, aplica atualmente uma política de populações tradicionais, uma tentativa de estabelecer diálogo e procurar soluções de interesse comum entre as prioridades dos parques nacionais e as pessoas que vivem dentro das áreas protegidas. “Os nativos são importantes, pois preservam um estilo de vida que também é patrimônio, mas é preciso buscar um caminho que permita que esse modo de vida não ameace a biodiversidade local”, avalia Carolina Alvite.

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