Especial cuidadores: quem são os heróis anônimos que protegem os animais em situação de abandono

A Organização Mundial da Saúde estima que, só no Brasil, existam mais de 30 milhões de animais sem um lar, sendo 10 milhões de gatos e 20 milhões de cães. De todos estes cachorrinhos abandonados, 14 milhões acabam em abrigos, sendo que 90% nunca encontrarão um dono para chamar de seu.

Em cidades de grande porte, para cada cinco habitantes há um cachorro. Destes, 10% estão abandonados. Em cidades menores a situação não é muito diferente. Em muitos casos o número chega a 1/4 da população humana. 

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Foto © Divulgação

A cidade de São Paulo, por exemplo, conta com UM único CCZ, Centro de Controle de Zoonoses, órgão responsável por cumprir políticas preventivas como vacinação, registro, castração e doação para os aproximadamente 1,6 milhão de bichinhos abandonados na cidade. Para poder suportar todos os atendimentos, seriam necessários NO MÍNIMO três CCZ.

O drama do abandono

Segundo Rita Garcia, Coordenadora Executiva do ITEC (Instituto Técnico de Educação e Controle Animal), o número de animais cresce junto com o da população humana, assim como os problemas relativos a esse aumento. “Enquanto não existir uma política de impacto para atender essa demanda que é enorme, o problema não vai diminuir”.

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Foto © Divulgação

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Foto © Mauro Pimentel

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Foto © Félix Zucco

Isso mostra que o “fenômeno pet”, que inseriu cães e gatos no convívio familiar, não foi acompanhado por uma estrutura pública de prevenção ou que resolva o drama da superpopulação e do abandono, pois não são somente cãezinhos sem raça que vivem nas ruas. Muitos dos cachorros abandonados possuem alguma raça ou são mistura, tendo sido muitas vezes irresponsavelmente jogados na rua por terem vindo com “algum defeito” ou então por não poderem procriar mais, se tornando “inutilizáveis” para seus donos.

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Foto © Fernando da Mata

Pesquisas do IBGE estimam que o Brasil tem 52 milhões de cães e 22 milhões de gatos domiciliados. Quantos destes irão parar nas ruas ou gerar crias indesejadas, que serão abandonadas assim que nascerem?

Estes são números realmente muito tristes, ainda mais se pensarmos que existem milhares de lares que poderiam ajudar a resolver o problema.

Os protetores

Tentando minimizar esta crise e, ao mesmo tempo, ajudar estes animais abandonados a encontrarem uma família onde possam dar e receber muito amor, estão os “protetores”. Pessoas que, quando passam pela rua e veem um animal encolhido, desnutrido ou ferido, não conseguem seguir em frente indiferentes à situação. Estes heróis do dia a dia recolhem os animais, levam a clínicas veterinárias, onde muitas vezes ficam por meses, tamanho o estrago com sua saúde, dão comida, banho e carinho, enquanto paralelamente correm atrás de voluntários que possam ajudar tanto financeiramente quanto na busca por um novo lar para estes bichinhos.

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Foto © Mauro Pimentel

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Foto © Mauro Pimentel

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Foto © Félix Zucco

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Foto © Apelo Canino

Luísa Mell

Este é o caso da apresentadora Luísa Mell que, desde 2015, mantém o Instituto que leva seu nome, atuando no resgate de animais feridos ou em situações de risco, ajudando na recuperação e adoção dos bichinhos. A história de Luísa com os animais vem desde 2002, quando apresentava o programa Late Show, na RedeTV, onde mostrou a situação degradante de muitos pets, denunciando maus tratos por todo o país. Desde então, tornou-se ativista do gênero, sendo uma das mais conhecidas do Brasil. Hoje, seu instituto mantém um abrigo com cerca de 300 animais, entre cães e gatos, todos resgatados das ruas, onde são protegidos e alimentados enquanto aguardam pela chance de serem adotados.

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Foto © Reprodução Facebook

“A relação de minha família com os animais começou em uma feira de adoção, em São Bernardo. Ficamos com uma vira-lata muito doente. Virou amor pra vida toda”,  conta Luísa, que também é vegetariana e levanta a bandeira sobre a redução do consumo de carnes e utilização ou ingestão de produtos provenientes dos animais.

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Quase todos os animais chegam ao Instituto bem debilitados

Hoje, o Instituto tem um gasto mensal de aproximadamente 32 mil reais, sendo que praticamente metade deste valor vai para as despesas veterinárias, como medicamentos, exames, internações e cirurgias. Quase 80% da receita vem de doações, o restante é obtido através de vendas de produtos que vão desde camisetas até calendários e capinhas para celular.

Paula Jabur Elias

Para Paula Jabur Elias, uma protetora de Florianópolis, as coisas são um pouco diferentes.

Paula não tem uma ONG, nem um Instituto, mas faz seu trabalho com o mesmo amor, carinho e dedicação. Hoje, cuida de cerca de 30 cães resgatados, que convivem com ela, seu marido e filho num sítio na região de Florianópolis. Eles não contam com ajuda de voluntários para manter os animais, então o marido de Paula tem dois empregos para poder bancar os quase R$7.000,00 mensais necessários para alimentar e manter os cachorros saudáveis, enquanto Paula sustenta uma rotina quase militar para dar conta de tratar de todos os cãezinhos não só vira-latas, como também animais de raça ou mistura.

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Mel, uma buldogue inglês que servia de matriz e foi descartada após não poder procriar mais © Reprodução Facebook

“Cerca de 30% dos animais resgatados são de raça ou mix de alguma raça. Ou seja, as pessoas estão ficando cada vez mais exigentes, já te procuram sabendo a raça, o sexo, a idade, o peso e às vezes até a cor do animal que querem adotar! Pra mim, isso é resultado do egoísmo humano que tem aumentado assustadoramente, cada vez mais as pessoas pensam só em si próprios, não têm tempo e nem querem gastar com um animal. E se der algum “problema” te devolvem ou largam na rua como se fosse um objeto com defeito ou quebrado, independentemente se foi adotado, comprado, se tem raça ou não”, contou Paula ao Hypeness.

A protetora acredita que, mesmo com o seu trabalho e de tantos outros protetores espalhados por todo o Brasil, o número de animais de rua está crescendo rapidamente, considerando que um casal de cães ou gatos cruzando 2 vezes ao ano, em poucos anos gerará centenas de outros animais, já que os filhotes gerados estarão cruzando também. Paula afirma que se esta questão não for tratada com mais seriedade e prioridade pelo governo, logo irá se tornar um problema de saúde pública insustentável.

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Foto © Reprodução Facebook

Uma das soluções propostas para tentar conter esta superpopulação é a castração. Em algumas cidades, como São Paulo, a castração de animais é lei. Estudos apontam que o equilíbrio entre mortes e nascimentos é atingido quando 70% da população de cães e gatos é castrada. Alguns atribuem essa missão ao poder público, mas outros alegam que o governo não tem estrutura para isso. O fato é que a questão é polêmica, e precisa ser discutida urgentemente.

Sara Vieira

A protetora Sara Vieira, do Projeto  Anjos de Patas, conta que todos os animais que vivem no sítio da ONG são doados castrados, tanto fêmeas quanto machos, evitando assim que novos filhotes indesejados sejam deixados na rua. Assim acontece com praticamente todas as ONGs, muitas vezes através de convênios com clínicas veterinárias para realização do procedimento a um baixo custo. Ainda assim, multiplicando-se por tantos animaizinhos abandonados sob cuidado dos protetores, o valor acaba ficando alto. Um gasto dispendioso, mas necessário, visto que se trata da maneira mais eficaz de manter algum controle sob a procriação.

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Foto © Reprodução Facebook

União Internacional Protetora dos Animais

Em São Paulo, a UIPA (União Internacional Protetora dos Animais), acomoda aproximadamente 900 cães e gatos, em uma área de 9 mil metros quadrados. Segundo Vanice Orlandi, presidente da ONG, a prefeitura doou o terreno onde funciona o abrigo, mas não contribui com os gastos mensais da instituição. “A prefeitura me procurou para fazer uma parceria há alguns anos. Eles queriam mandar para cá os animais atropelados, mas não iam contribuir com material cirúrgico. E nós recebemos aqui animais trazidos pela Polícia Militar e pela empresa municipal de trânsito. A gente supre a omissão do poder público. Eram eles que deveriam estar fazendo nosso papel”, afirma Vanice.

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Foto © Mauro Pimentel

Temos um problema enorme a ser resolvido. O trabalho de todas estas ONGs e protetores é incrível, mas a responsabilidade por uma questão de saúde pública tão abrangente não pode ficar nas mãos de alguns altruístas amantes dos animais. Além disso, mesmo com todo o trabalho e o esforço diário, é impossível resolver um problema que envolve milhões de animais com a dedicação de alguns poucos cidadãos.

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Foto © Divulgação

Mas, por enquanto, esta é a nossa única esperança. O poder público, de modo geral, ainda carece de políticas para resolver a situação dos animais abandonados, e precisa de um plano de ação urgente. Combater o “problema” é fundamental, mas mais importante ainda é não deixar que ele aconteça.

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Foto © Apelo Canino

As cidades precisam de mais centros para cuidar dos animais abandonados, mas também precisam de campanhas de conscientização, para que as pessoas deixem de ver cães e gatos como um brinquedo que pode ser descartado a partir do momento que você perde o interesse. E enquanto isso não acontece, milhões de vidas continuam dependendo da generosidade dos nossos heróis do dia a dia.

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Foto © Web Animal

5 comentários

  1. Sou uma apaixonada pelos animais, não sou uma protetora mais sempre que posso ajudo os animais da rua, resgato e faço o que posso. Queria poder fazer mais por eles, só que acredito que o pouco já ajuda muitos e posso dar esperança ou um lar pra alguns. Acompanhando vários protetores, lendo e me apaixonando mais por eles também estou mudando minha vida, não como mais carne vermelha, porco e não uso nada que faça testes em animais e nem nada de couro. Ainda não sou vegetariana, mais espero um dia me tornar. Amo seus post. Beijinhos

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