Como artistas usaram a criatividade para driblar a censura da ditadura militar brasileira nos anos 70

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“Hoje você é quem manda / Falou, tá falado / Não tem discussão / A minha gente hoje anda / Falando de lado / E olhando pro chão, viu / Você que inventou esse estado / E inventou de inventar / Toda a escuridão”. Quando o cantor e compositor Chico Buarque voltou para o Brasil em 1970, após passar um período exilado na Itália, ele se sentiu enganado. Enquanto que nas cartas que recebia era vendida a imagem de um país melhor, a realidade lhe trouxe o rígido governo de Emílio Médici, que escondia torturas e repressão com gols da Copa e slogans do tipo “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

Chico decidiu escoar toda a sua angústia e frustração nos versos acima, que compõem a famosa música “Apesar de você”. Crente de que a canção seria vetada, o cantor se surpreendeu quando os censores acreditaram que os versos falavam de um simples desentendimento entre namorados e os liberaram. O compacto com as músicas “Desalento” e “Apesar” de você vendeu mais de 100 mil cópias e foi somente meses mais tarde, depois de ser publicada uma nota sobre a música em um jornal, que o governo sacou: o estado de que Chico falava era com “e” maiúsculo e a desavença era com Médici – em um interrogatório, contudo, o cantor bateu o pé ao ser questionado sobre quem era o “você” da canção. “É uma mulher muito mandona, muito autoritária”, teria dito.

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Imagem/Reprodução

Se o primeiro período do regime militar, comandado pelo general Humberto de Alencar Castelo Branco, foi razoavelmente suportável para os artistas e também para os protestos, o bicho pegou com a vigência do Ato Institucional nº 5, em dezembro de 1968. Pode-se dizer que, a partir dessa data, a censura estava oficializada e toda peça cultural deveria ser submetida ao crivo dos censores, o que amordaçou a produção intelectual e artística do Brasil. Em uma briga estilo Davi e Golias, a censura da Ditadura Militar cortou e vetou muitas canções, livros, filmes, novelas e peças de teatro, mas foi, nos termos de hoje, trollada mais vezes do que gostaria.

Era na música que os protestos mais pungentes contra o regime estavam presentes. Na maioria das vezes, eles vinham mascarados por inversões, ironias, duplos sentidos e estratégias linguísticas que não raro passavam despercebidas pelo Departamento de Censura de Diversões Públicas (DCDP), mas nunca pelo público. Aos olhos dos censores, contudo, não era só o posicionamento contra o governo que chamava a atenção, mas também todo e qualquer termo ou situação que atentasse contra a moral e os bons costumes – o quão vago é isso?

Tudo que era negócio de cama, corno, seio, não podia falar. Passei quatro anos dessa maneira“, conta Odair José, famoso pelas músicas bregas. Canções como “O Motel” e “A Primeira Noite” foram censuradas justamente por “ofenderem a moral e os bons costumes”. Por outro lado, a famosa “Pare de Tomar a Pílula” foi liberada e os censores só voltaram atrás quando uma campanha nacional pelo controle de natalidade foi patrocinada pelo governo.

Alguns censores incluíam nesse difuso balaio dos bons costumes o dialeto padrão. Prova disso é o compositor paulista Adoniran Barbosa, que usava em suas músicas a forma coloquial de falar, e teve várias de suas canções vetadas – até mesmo as que não eram inéditas. O motivo? Palavras como “tauba” (tábua), “revorve” (revólver), “fumo” (fomos) e “artormove” (automóvel). Razões como “pésismo gosto” ou “gosto duvidável” também eram frequentemente usadas pelo DCDP para sustentar censuras.

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Imagem/Reprodução

Quando Chico Buarque tapeou a censura com “Apesar de você”, ele despertou a ira dos censores, que passaram a vetar, sem mais nem menos, toda e qualquer canção cuja autoria era de Chico. Mas se eles achavam que dessa forma iriam barrar o cantor, estavam muito enganados. Em uma jogada pra lá de esperta, Chico usou um pseudônimo para driblar a implacável censura: Julinho da Adelaide. Foi assim que ele lançou o LP “Sinal Fechado” em 1974 e várias canções que se valiam de metáforas e dos artifícios já mencionados para se referir ao regime e lançar provocações. Uma delas foi “Jorge Maravilha”, cujo verso “Você não gosta de mim mas sua filha gosta” chegou a ser interpretado como pirraça ao então presidente Geisel, já que sua filha teria admitido gostar das músicas de Chico. Julinho chamou tanta atenção que Chico chegou a dar entrevista para o jornal Última Hora incorporando o personagem – vale a pena ler aqui o depoimento do jornalista e escritor Mário Prata sobre o episódio.

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Imagem/Reprodução

Passeata pelas Diretas J·

Foto © Agência Estado

E na falta de verso, o silêncio também poderia ser visto como ameaça. É o caso do álbum instrumental “Casa Forte”, lançado pelo compositor Edu Lobo, em 1971. Segundo o DCDP, se não há palavras, qualquer interpretação é possível e as faixas poderiam ser usadas como propaganda anti-regime. É mole? Bom, se o poeta Ferreira Gullar foi acusado de manter relações com Cuba após a polícia apreender em sua casa um livro com o título “Do Cubismo à Arte Neoconcreta”… Como bem pontua o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony. “A gente contava com dois fatores, um a favor e outro contra. O a favor era o seguinte: os censores eram muito burros, então não percebiam certas nuances. Por sua vez, por serem muito burros, muitas vezes cismavam com coisas que não tinham nada demais e proibiam uma peça ou uma música”.

Se as canções traziam versos sagazes (ou possíveis silêncios) contra a ditadura, as capas traziam nudez e um bocado de deboche. No disco “Índia”, em 1973, Gal Costa aparecia de tanga, em close, e na contra capa posava com os seios à mostra. Vetada, a arte do disco só foi liberada recentemente. Já no álbum Jóia, de 1975, em que Caetano Veloso aparecia nu com sua mulher e seu filho, com pombas cobrindo a genitália, a censura só liberou as pombas.

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Imagem/Reprodução

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Imagem/Reprodução

O caso mais pitoresco, no entanto, fica por conta da capa do disco Todos os Olhos, de Tom Zé. Para provocar o regime, o poeta Décio Pignatari deu ao músico a ideia de fotografar um ânus com uma bola de gude no centro, como se fosse um olho. Um assistente da agência de publicidade em que o poeta era sócio chegou a tentar algumas fotos com uma namorada. Sem sucesso: a bolinha não ficava parada. Uma nova tentativa foi feita com uma prostituta, mas novamente o resultado não ficou bacana. O jeito foi colocar a bolinha de gude (outra, esperamos) na boca da moça, que maquiou e contraiu levemente os lábios. O mais curioso é que o próprio Tom Zé acreditou por muito tempo que se tratava de um ânus na capa do disco. Os censores? Nem questionaram.

Nas apresentações do Secos & Molhados, de Ney Matogrosso, o problema não era a música, mas o visual andrógino e transgressor: tecidos coloridos, brilhantes, tules e uma certa nudez preocupavam os censores, que só liberavam as transmissões de shows se os corpos dos cantores não fossem mostrados, deixando apenas os rostos em close. Por ter se tornado o veículo de comunicação com maior audiência, a televisão ganhou certa prioridade da censura, que não media esforços para reformar e até vetar novelas e filmes. Populares, as novelas tinham o roteiro verificado pelos censores antes de ser rodada e, depois disso, os capítulos eram novamente analisados. Cortes de cena, mudanças no sentido original da trama e deturpação de personagens eram comuns, mas as emissoras faziam o possível para que o público não percebesse as mudanças.

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Fotos via Jornal GGN

“Selva de Pedra” teve seu enredo modificado quando já estava em exibição, em 1972. A primeira versão de “Roque Santeiro”, de Dias Gomes, foi proibida, bem como “Pedreira das Almas”, de Jorge Andrade. Pixote, de Hector Babenco, rodada em 1980, só foi liberada cinco anos depois e com diversas cenas tesouradas. A implicância dos censores era bastante arbitrária. Prova disso foi uma discussão que houve sobre a palavra “cocô”, dita na novela “Escalada”, de Lauro César Muniz, em 1975.

As birras da censura atingiram o nível surreal diversas vezes, uma delas quando o então Ministro da Justiça Armando Falcão, do governo Geisel, proibiu que o ballet “O Lago dos Cisnes” fosse exibido na TV, pois seria performado pela companhia Bolshoi, que é russa – vale lembrar: a Guerra Fria dividia o mundo nesse período e o Brasil andava na panelinha dos EUA. Enquanto se importava com isso, a censura deixava passar novelas como “O Grito”, em 1975, de Mário Gomes, que contava a história de uma criança que gritava toda noite – uma metáfora sobre o silêncio e a censura.

“[Os censores] não tratavam a arte como forma de revolução. Mas os laudos da censura eram, muitas vezes, justificativas para vetos que já estavam definidos para determinados autores, atores e temas. A censura, antes de tudo, é uma relação de poder entre pessoas e não do censor quanto ao texto. O texto é só um pretexto. O Estado precisava achar algo para demonstrar que tinha poder. Então, nem sempre faz sentido porque não é o que importa. É a relação de poder, o medo da repressão e do prejuízo econômico”, explicou Cristina Costa, diretora do Observatório de Comunicação, Liberdade de Expressão e Censura da USP, em entrevista ao UOL.

Nos cinemas, Terra em Transe, filme de Glauber Rocha foi proibido no Brasil, em 1967. O teor da película foi considerado irreverente e subversivo e frases como “a praça é do povo e o céu é do condor” foram tidas como ameaças ao regime vigente. Pouco depois, entretanto, os censores mudaram de ideia e decidiram liberar o título. “Eles achavam que poderiam permitir a exibição de certos filmes porque eram incompreensíveis para o povo brasileiro, em um claro menosprezo pelo povo e pelos cinéfilos”, afirmou Fabiano Canosa, produtor cultural responsável pela programação do Cine Paissandu, no Rio de Janeiro (RJ), símbolo de resistência da época.

Para José Mojica Marins, o Zé do Caixão, a censura foi ainda pior, já que seu filme “À Meia Noite Encarnarei em teu Cadáver” não só foi proibido como a analista de censura deu uma justificativa no mínimo agressiva: “se não fugisse à minha alçada, seria o caso de sugerir a prisão do produtor pelo assassinato à Sétima Arte, pois não foi outra coisa que ele realizou ao rodar o presente filme“, teria escrito. Tempos depois, caso semelhante se deu no filme “Ritual dos Sádicos”, em que o censor avaliou que era necessário evitar “que se levasse algo indesejável e asqueroso ao público”.

Em 1969, o filme “Macunaíma“, baseado no livro de Mário de Andrade e dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, teve uma cena cortada: o censor identificou na roupa de uma das personagens o símbolo da Aliança para o Progresso, organização à qual o regime era contra. E nem mesmo Stanley Kubrick passou incólume pelas garras da censura: Laranja Mecânica, lançado em 1971, só saiu no Brasil em 1978. E com um brinde da ditadura: nas cenas de nudez e sexo, bolinhas pretas cobriam as genitálias e os seios dos atores.

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Imagem/Reprodução

Assinando um certificado de falso moralismo, enquanto escondia mamilos nas cenas de Kubrick, a ditadura se esbaldava em um dos gêneros que mais faziam sucesso por aqui: a pornochanchada. O gênero, gravado principalmente em São Paulo (SP), em uma região do centro conhecida como Boca do Lixo, consistia em uma mistura de comédia e erotismo que não demorou para conquistar o público. Julgado como alienante por muitos intelectuais e participantes do movimento contrário ao regime, esses filmes tinham uma influência da revolução sexual, mas perpetuavam conceitos conservadores, como o machismo, o racismo e a homofobia. Algumas pornochanchadas foram baseadas nos livros de Cassandra Rios, a autora que mais foi censurada na ditadura e que usava desse título para alavancar as vendas – “Um novo sucesso da autora mais proibida na Brasil“, lê-se em uma das capas.

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Imagens/Reprodução

Muitos diretores de pornochanchadas adotavam estratégias curiosas para proteger suas obras da censura: inseriam cenas de nudez e sexo muito mais explícitas do que gostariam. Assim, os censores costumavam cortar essas cenas, liberando as mais contidas que, na verdade, eram as que o diretor queria. Ao analisar filmes do gênero, muito mais do que procurar ameaças ao regime, era a moral e os bons costumes que estavam em jogo. Mas nessa missão, talvez esses profissionais se vissem em um confronto entre liberdade e a repressão e entre desejos e proibições.

Mais do que trazer filmes e séries incríveis para telinha, há 10 anos a HBO tem se preocupado em criar produções originais no Brasil. Este ano, o canal traz mais uma série nacional que promete encantar o público brasileiro, a Magnífica 70.

Na história, Vicente é um dos vários funcionários que trabalham na censura federal. Todos os dias ele assiste a filmes, entre eles, diversas pornochanchadas. É num desses títulos que ele se apaixona por Dora Dumar, uma garota que se aproxima da produtora Magnífica com o objetivo de cometer um golpe, mas se apaixona pela possibilidade de se tornar atriz e passa atuar nos filmes produzidos na Boca do Lixo. Mas como um respeitado censor federal cai de amores por uma atriz de filmes eróticos? Paixões e embates morais rendem uma grande história de amor e sonhos.

A série Magnífica 70 estreou no dia 24 de maio só na HBO e vai ao ar sempre aos domingos, às 21h. O primeiro episódio da série ficará disponível gratuitamente, por 30 dias, no YouTube, HBO GO e HBOMAX.TV.

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