Jardineiro californiano com câncer terminal será a primeira pessoa a levar a Monsanto ao tribunal

Receber a notícia de que não há mais cura para a doença que se tem e de que se vai morrer em breve há de ser uma experiência inenarravelmente aterradora. Atravessar este calvário ainda aos 46 anos, com toda uma vida em potencial pela frente – três filhos, esposa, amigos, trabalho – torna tudo ainda mais terrível.

O que faz a trajetória que o jardineiro americano DeWayne Johnson vem atravessando ainda mais trágica é que sua morte iminente poderia ser facilmente evitada, e, quando confirmada, se dará pela ganância e a negligência de uma das maiores empresas do mundo: a gigante do mercado de agricultura e agroquímica Monsanto. A única esperança que rege a vida que resta em DeWayne é não só provar que a empresa sabia dos males que seus produtos provocam, como levar a Monsanto ao tribunal – e condená-la.

Pois se é possível existir alguma boa notícia em meio a essa história, é mesmo a confirmação de que Johnson será a primeira pessoa a levar a empresa a encarar um júri. A acusação que ronda a Monsanto há décadas, de que a empresa esconde os perigos e os potenciais cancerígenos de seus herbicidas, finalmente foi levada em consideração por um juiz da Califórnia, que confirmou que levará o caso à corte a fim de que um júri possa avaliá-lo e eventualmente condenar a empresa.

O produto em questão que teria envenenado Johnson se chama Roundup, um herbicida feito à base de glifosato, componente descoberto por cientistas ligados à Monsanto e usado para matar ervas daninhas e gramíneas que competem com as culturas em plantação. Ainda que até a Organização Mundial de Saúde considere o glifosato um cancerígeno em potencial, a Monsanto propriamente nega tais pesquisas e afirmações.

Durante três anos, de 2012 até o final de 2015, Johnson trabalhou como jardineiro no distrito escolar de Benícia, uma cidade no condado de Solano, na Califórnia, período no qual utlizou o Roundup nos jardins das escolas e foi exposto sistematicamente ao glifosato. Segundo consta, o jardineiro estava perfeitamente saudável e ativo até começar o serviço, e teve seu câncer – do tipo linfoma não-Hodgkin – diagnosticado em agosto de 2014.

Segundo declaração de seu médico, mais de 80% de seu corpo estava coberto de lesões, e ele tinha então poucos meses de vida. O diagnóstico fatal permanece, mas um novo tratamento iniciado em novembro melhorou um tanto sua situação, ainda que ele muitas vezes sinta-se tão fraco que não consiga levantar-se da cama ou mesmo falar, e que sua morte possa chegar a qualquer momento.

O juiz Curtis Karnow, que aceitou o caso de Johnson contra a Monsanto, emitiu uma ordem que permite que juristas avaliem as evidências científicas do que teria causado a doença de Johnson, mas também as alegações de que a empresa sabia do efeito e de que teria deixado de expor comprovações do risco do uso de seu herbicida.

Uma das provas seriam correspondências internas oferecidas pelos advogados de Johnson como literatura do caso. “As correspondências internas apontadas por Johnson podem suportar a hipótese de um júri concluir que a Monsanto está há muito ciente do risco que seus herbicidas à base de glifosato sejam cancerígenos”, escreveu o juiz.

[A empresa] teria continuamente buscado influenciar os documentos científicos para prevenir que suas preocupações internas não atingissem a esfera pública e para reforçar suas defesas em ações sobre a responsabilidade dos produtos. Há, portanto, material factual para um julgamento”, concluiu em nota.

Manifestações contra a empresa. Acima: “Monsanto é morte certa”; abaixo: “Nossos filhos não são ratos de laboratório da Monsanto”

Uma das maiores empresas químicas e bioquímicas do mundo e também uma das líderes na produção de sementes e transgênicos, as acusações contra a Monsanto – fundada por um farmacêutico em 1901 – vão, pasmem, muito além de simplesmente produzir produtos com o potencial de causar câncer. Importantes ONGs e pesquisas acusam a Monsanto de contribuir ativamente para o crescimento da fome e da miséria no mundo, através do controle que exerce sobre grande parte do comércio internacional de alimentos e produtos agrícolas.

Segundo relatório da Action Aid (ONG que busca soluções para a fome e a pobreza), empresas como a Monsanto, a Nestlé, a Wal-Mart e a Cargill dominam praticamente todo o mercado de alimentos e produtos agrícolas, das sementes e plantações até chegarem aos supermercados e, logo, em nossas casas.

Um outro produto da Monsanto ligado ao herbicida dimensiona a gravidade do caso em potencial, caso venha a ser confirmada não só seu efeito cancerígeno como a hipótese de que a empresa de fato sabia de tal consequência: Trata-se do RoundUp Ready (ou Pronta para o RoundUp), uma semente de soja desenvolvida pela empresa no início da década de 1980 para ser especialmente tolerante ao herbicida, permitindo aos agricultores matar as ervas daninhas sem matar suas culturas. Ainda que a empresa alegue que esse tipo de semente transgênica exige menos aplicações de herbicidas, ela não só é pensada e desenvolvida para que o glifosato seja utilizado, como o próprio nome sugere seu uso.

São tantas as jornadas e manifestações contra a empresa pelo mundo que já existe uma Marcha Mundial contra a Monsanto. Tratam-se, afinal, de acusações tão graves que poderia se imaginar que ao menos investigações ou julgamentos propriamente deveria ser realizados contra a empresa, mas não. O poder da Monsanto é tamanho que, apesar de tantas acusações ao longo de décadas, em março de 2013 foi aprovada uma emenda na lei de orçamento dos EUA – apelidada de Ato de Proteção à Monsanto – que permite o cultivo de plantas geneticamente modificadas mesmo sem homologação.

Algumas das Marchas Contra Monsanto espalhadas pelo mundo

A empresa, no entanto, garante que seus herbicidas são seguros, desafiando as diversas pesquisas que comprovam os males causados pela exposição ao glifosato e ao RoundUp. Em nota publicada em seu site, a Monsanto afirma que seus “herbicidas à base de glifosato são amparados em um dos maiores bancos de dados de saúde humana e efeitos ambientais jamais reunidos para um pesticida”. A nota segue, afirmando que pesquisas toxicológicas diversas realizadas nos últimos 40 anos comprovaram a segurança de seu produto.

Segundo os advogados de Johnson, a empresa apresenta dados falsos e ataca estudos legítimos a fim de conduzir uma “prolongada campanha de desinformação” com o intuito de convencer as agências governamentais, fazendeiros, consumidores e a opinião pública de que seu produto é seguro. “Não vemos a hora de expor como a Monsanto escondeu o risco de câncer e poluiu a ciência”, disse Michael Miller, advogado de Johnson. “A Monsanto não quer que a verdade sobre a relação entre o RoundUp e o câncer venha à público”.

Ao que tudo indica, parece evidente que a Monsanto – e, junto com ela, toda a indústria de pesticidas, conservantes e produtos químicos que acabam afetando a vida de agricultores, nossos alimentos e, assim, nossa saúde – estão no caminho de passarem pelo processo de exposição da verdade e a sucessão de processos bilionários que atravessou e ainda atravessa, por exemplo, a indústria do tabaco.

O caso de Johnson é, afinal, a vanguarda de outros mais de 4 mil processos abertos contra a empresa, que alegam que o produto causou a eles ou a seus entes o mesmo câncer que agora Johnson enfrenta. O caso de Johnson irá à corte em 18 de junho, e em outubro está agendado um novo julgamento na cidade de St. Louis, onde a empresa foi criada.

O caso de Johnson poderá abrir um precedente histórico, a fim não só de revelar a verdade sobre tais produtos – e potencialmente começar enfim a indenizar, em quantias provavelmente milionárias, o sem-fim de famílias prejudicas pela exposição ao herbicida – como também a abrir uma ferida imensa que precisa ser enfrentada com veemência urgentemente: a química que chega em nossos corpos pelos alimentos, e o controle de tais empresas sobre a indústria alimentícia e seu efeito sobre a fome mundial.

Só alguém muito ingênuo ainda não concluiu que o lucro de tais gigantes do mercado é a maior barreira para se conseguir concretamente alterar o cenário de desigualdade e miséria que mantém a fome como um dos maiores males globais, apesar da imensa quantidade de comida produzida e desperdiçada anualmente, e apesar das tecnologias de ponta que poderiam ajudar a combater esse terrível problema. Da mesma forma, é o lucro descontrolado que, por fim, jorra a tonelada de veneno sobre os alimentos que chegam a nossas casas. Se a doença de Johnson é um pouco a doença de todos, sua vitória também poderá vir a ser uma vitória do mundo – que, quem sabe, poderá tê-lo como um herói, um símbolo de uma página nefasta e vil que começou a ser virada a partir de sua coragem e força.

© fotos: reprodução

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Bayer quer acabar com nome ‘Monsanto’ para tentar limpar sua barra

A fusão entre a Bayer e a Monsanto, anunciada em setembro de 2016, criou a maior companhia integrada de pesticidas e sementes do planeta. O negócio foi estimado na casa dos 249 bilhões de reais e deu ao grupo alemão o controle de todos os produtos da marca.

Dois anos após a compra a Bayer acaba de anunciar a supressão do nome da Monsanto. Ou seja, a partir de agora todas as sementes e pesticidas produzidas pela empresa norte-americana serão comercializadas com a logo da gigante de medicamentos.

A notícia causou revolta de entidades de defesa do meio ambiente e agricultores, que acusam a Bayer de tentar se distanciar da Monsanto, durante décadas alvo de manifestações e protestos sobre os efeitos nocivos para a saúde e ambiente causados por seus produtos.

A Bayer se pronunciou dizendo que a própria Monsanto já havia estudado trocar seu nome, mas por razões desconhecidas isso não se concretizou. O presidente da companhia alemã criticou ainda o que chamou de “frentes ideológicas”.

“Estamos ouvindo os que nos criticam para trabalharmos, porém o progresso não deve ser detido pelo fortalecimento das frentes ideológicas”, finalizou Werner Baumann.

As agências responsáveis pela regulamentação da concorrência nos Estados Unidos e Europa autorizaram a fusão, mas exigiram que a Bayer vendesse parte de suas atividades à rival BASF. O negócio faz da nova empresa a maior do setor e dona de um faturamento perto dos 20 bilhões de euros.

Presente na lista das 10 companhias mais odiadas da América, a Monsanto foi fundada em 1901 pelo químico John Francis Queeny e desde a década de 1990 se destacou na química agrícola. Sua má reputação foi construída pela presença na linha de produção itens como o Roundup, um dos herbicidas mais usados do mundo apesar de ser classificado como cancerígeno.

Fotos: foto 1: Wikipédia/foto 2: Pixabay/fonte:via