Vale do Loire: a região que concentra o maior número de castelos do Mundo


São onze horas da noite. A temperatura beira os 30 graus e a luz do dia ainda se faz presente em Amboise, no Vale do Loire, região ao norte da França que concentra o maior número de castelos do mundo e está a apenas a uma hora do aeroporto de Paris. A bordo de um Toues, barco concebido há séculos, que pouco mudou com o passar do tempo, navego pelo rio Loire, o mais extenso de toda a França. Ao fundo, a ponte Maréchal Leclerc e as curvas do Château du Amboise se iluminam pelos últimos raios de sol.

À bordo, não só a paisagem e a brisa fresca do verão europeu, mas todas as guloseimas dignas de um piquenique francês.  Patês, queijos e vinhos, de diferentes uvas e safras, todos produzidos na região. Pascal Mineal, proprietário da adega Caves Duhard, também em Amboise e a apenas a alguns metros dali, comanda a degustação e apresenta diferentes rótulos elaborados a partir de uvas cultivadas nesse solo fértil, os Vouvray.

A explosão de sabores envolta em natureza exuberante me faz pensar que não deve ter sido difícil para a nobreza francesa adaptar-se à vida no Loire quando decidiram se estabelecer por aqui, no século 16. Nesse período, centenas de castelos foram erguidos por reis e rainhas das dinastias Bourbon e Valois, trezentos deles abertos até hoje para a visita de qualquer reles mortal. Conhecê-los é sem dúvida a melhor forma de reviver a história da região, que leva o posto de berço do Renascimento na França.

Tudo começou quando a corte convocou artistas e pensadores da vizinha Itália, onde o movimento borbulhava, para estabelecer morada no Loire. Dentre deles, Leonardo da Vinci, que a convite do ­­rei Francisco I, grande mecenas das artes, mudou-se para Amboise em 1515. Reza a lenda que viajou até a França no lombo de uma mula, carregando consigo três pinturas: Mona Lisa, SantÁna e São João Batista. O artista viveu 3 anos no Loire até o seu último suspiro, em 2 de maio de 1519. No ano que vem, a região celebra o aniversário de 500 anos de sua morte com programação especial em todos os châteaus.

Chez Leonardo da Vinci no Vale do Loire

O centro das comemorações será sua última morada, o Château Clos Lucé, que vai sediar a exposição “Leonardo da Vinci, Seus Alunos, a Última Ceia e François 1º”, dentre outras atividades. Uma visita ao palacete permite conhecer réplicas das pinturas e engenhocas desenvolvidas por ele e desvendar algumas curiosidades de seu cotidiano. Leonardo, que viveu no castelo dos 64 aos 67 anos, usava gema de ovo e água da chuva para misturar pigmentos e criar os tons com que pincelava. Passou os últimos anos de sua vida trabalhando em obras encomendadas pelo rei e organizando festas para ninguém botar defeito.

A diversão porém vai muito além do Clos Lucé. Há alguns quilômetros de distância e debruçado sobre o rio Loire está o château  que avistei no bucólico passeio de barco, o Amboise. Reza a lenda que um túnel subterrâneo o conecta ao Clós Lucé, usado nos tempos áureos por Da Vinci para visitar o então amigo Francisco I, que ali viveu por um período de sua vida.

Realeza ostentação

Já disse que visitar o Loire é a melhor forma de reviver a história da França no século 16. Adentrar nessas construções majestosas é se teletransportar para uma outra era, em que todos viviam (ou morriam) em prol da corte real. Os gastos para sustentar a vida boa eram imensuráveis e a realeza era nômade, ou seja, erguia castelos majestosos como o de Amboise e encomendava outros feitos arquitetônicos a altura deste quando cansavam-se da morada atual. Dá para entender bem os motivos que levaram `a Revolução Francesa depois de entrar em contato com tamanha ostentação.

Intrigas, casamentos por interesses territoriais, traições, assassinatos, tudo rolava por aqui. Famoso como morada segura, o château de Amboise ficou conhecido como jardim de infância dos soberanos franceses. Aqui nasceu Charles VIII e foram criados Francisco I e Catarina De Médicis, entre outras figuras importantes da época. “Até Charles VIII ele era murado e com apenas uma entrada e por isso as crianças eram trazidas para cá. Foi Francisco I que derrubou seus muros, por influência do Renascimento”, me conta Izabele Pesinato, da Atout France.

Continuando as curiosidades reais: durante visita ao Chaumont Sur Loire, localizado na mesma comuna que dá nome ao castelo e a 20 minutos de carro de Amboise, Izabele me aponta uma gravura de Catarina de Médicis, que adquiriu o castelo e nele viveu a partir de 1550. O quadro, pendurado em um dos aposentos reais, a ilustra no dia de seu casamento, portando um vestido bordado com pérolas e diamantes, o seu dote. Descubro que era um habito da realeza casar-se trajando toda a fortuna, pois caso houvesse necessidade de fugir do inimigo durante a cerimônia, não seria necessário deixar a riqueza para trás.

Mas não só de memórias antigas vivem os castelos do Vale do Loire. Famoso pela magnífica área externa, o Chaumont Sur Loire mais se parece com um museu a céu aberto e exibe instalações outdoor (e indoor) de artistas que aqui deixaram sua marca após residências. Dentre eles, o brasileiro Henrique Oliveira, que se faz presente com a instalação Momento Fecundo, concebida com madeira compensada. O castelo sedia anualmente o Festival Internacional de Jardins e abriga também um restaurante onde se come literalmente como um rei, o Le Grand Velum.

Programações externas, porém, não são exclusividade do Chaumont Sur Loire. Espetáculos em vídeo mapping pipocam pela região, inclusive no Castelos de Blois, que a partir deste ano passa a revelar sua história por meio de projeções no pátio externo quando a noite cai. Em Chartres, outra comuna do Loire, há mais um experiência imperdível: a magnífica Catedral de Notre Dame também revive tempos áureos por meio de projeções e música, durante o  Chartres Light Show.

Do lado de dentro, uma visita à luz de velas à cripta da catedral, embalada por canto gregoriano e história, leva facilmente às lagrimas. A igreja é Patrimônio Mundial da Unesco, assim como o Château de Chambord, o maior do Vale do Loire, mais um monumento erguido graças aos caprichos de Francisco I, que o habitou por apenas 7 semanas no total.  Famoso mundialmente pela arquitetura renascentista, que mistura estruturas clássicas italianas com formas medievais francesas, o castelo exibe jardins magníficos e um restaurante para se deliciar ao ar livre.

Lar doce lar

Mais um must go da região, o Cheverny não é apenas o castelo que inspirou Hergé a criar o Château Moulinsart, das lendárias Aventuras de Tin Tin. Ele ainda é morada da família Hurault, que desde 1914 abriu parte de suas dependências para a visitação do público. Cheverny conserva o mobiliário e decoração do século XVII e abriga uma exposição interativa permanente de Tin Tin, Les secrets de Moulinsart, que desvenda o universo do personagem e seus amigos num percurso de 700m2.

Felizmente não é preciso fazer parte da família Hurault para dormir num castelo no Vale do Loire. O Chateau de Perreux, a 2 quilômetros de Amboise, passou por restauração e é hoje um hotel boutique com diferentes tipos de quarto. Ali é possível optar entre dormir na torre, no terceiro andar, entre vigas e madeiras expostas, em quartos menores com terraço com vista para o jardim ou ainda numa amplo aposento de 68m, que economiza em paredes e tem banheira a poucos passos da cama.

Na França, nos ares

Uma viagem de uma hora de trem separa o aeroporto de Paris, Charles de Gaulle, da estação ferroviária Gare de Chartres uma das portas de entrada do Vale do Loire. Para facilitar ainda mais a conexão Brasil – França, a Air France inaugurou em maio deste ano um voo direto de Forteleza para Paris, e espera com ele aumentar em 15% o fluxo de turistas brasileiros para a Europa no ano que vem. Em 2017, 1 milhão de brasileiros voaram de e para o Brasil, de acordo com Jean-Marc Pouchol, diretor-geral do Grupo Air France-KLM para a América do Sul.

O aniversário da morte de Leonardo da Vinci é mais um motivo para aproveitar a conexão e visitar a região do Vale do Loire em 2019. A programação completa do evento ainda não foi definida, mas os castelos e outros estabelecimentos prometem luz e festa para a ocasião, como bem gostava o artista.

A jornalista viajou a convite da Atout France e da Air France. /fonte via