Com 25 medalhas, Simone Biles dá um bico no racismo e entra para história

Um dos aspectos da construção racial nos Estados Unidos é a relação de afro-americanos com os esportes. A porcentagem de homens e mulheres negras praticando modalidades como basquete e futebol americano, por exemplo, é muito superior ao número de brancos. 

Simone Biles reina absoluta em esporte que ainda não abraçou diversidade

Isso, porém, não é uma regra. Diferente da NBA, que possui mais de 70% de jogadores negros, a liga nacional de beisebol e de hóquei abrigam até 8% de afro-americanos. 

Existe uma visão preconceituosa de que brancos devem ocupar espaços de tomada de decisão. A balela racista se faz presente mesmo em modalidades dominadas por negros, como o já citado futebol americano. Na NFL, o quarterback – responsável por lançar a bola e pensar o jogo -, é branco na maioria das equipes. 

Imagine ver um negro competindo na ginástica artística. Raridade. Brasileiros logo se lembram de Daiane dos Santos – primeira atleta do país a conquistar uma medalha de ouro em uma edição do Campeonato Mundial. E só. 

Embora se caracterize por investimentos mais robustos, nos Estados Unidos o cenário não é muito diferente. Portanto, o fato de Simone Biles se destacar como a principal atleta da ginástica artística é por si só motivo de celebração. 

A alteta norte-americana alcançou feito inédio

Some isso ao recorde ABSOLUTO de 25 medalhas de mundiais conquistadas (19 de ouro) pela jovem de 22 anos. Feito inédito entre ginastas do sexo feminino. “Eu recebo com carinho o apoio sem fim de todos”, escreveu no Twitter. 

Simone Biles conseguiu popularizar a ginástica. Graças ao seu talento e determinação, pessoas se reúnem em volta da TV para acompanhar sua acrobacias – responsáveis por reescrever os rumos da prática. E, claro, o sorriso negro satisfeito com o desempenho. 

A história de Simone Biles é ainda mais especial por causa de todos os obstáculos que se apresentaram ao longo do caminho. Ainda adolescente, a norte-americana nascida em Columbus, Ohio, precisou enfrentar abuso sexual de um médico da seleção dos Estados Unidos e ofensas racistas de adversários. 

A ginasta italiana Carlotta Ferlito teceu comentários racistas sobre o desempenho espetacular de Biles durante campeonato mundial na Bélgica. “Eu disse a Vane que da próxima vez vamos pintar nossa pele de preto para que possamos vencer também”, afirmou ela que se desculpou em seguida. 

Além do racismo, Simone foi sexualmente abusada por um médico membro da comissão técnica da seleção dos EUA, Larry Nassar. A vencedora de quatro medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016, revelou a violência em post no Twitter. 

“A maioria de vocês me conhece como uma garota feliz, de riso fácil e cheia de energia. Ultimamente tenho me sentido quebrada e quanto mais eu tento silenciar as vozes na minha cabeça, mais alto elas gritam”, escreveu na época. 

Simone deu um bico no racismo e lição em abusador

Biles utilizou a hashtag #MeToomovimento criado para denunciar os abusos cometidos por poderosos de Hollywood – e desabafou. 

“Não tenho mais medo de falar sobre minha história. Eu também sou uma sobrevivente entre muitas sexualmente abusadas por Larry Nassar. Muitas coisas me deixaram relutante em contar minha história, mas sei que não é minha culpa”, concluiu Simone, que culpou também a federação de ginástica dos EUA. 

Larry Nassar foi acusado de abusar de mais de 140 mulheres e crianças. Ele acabou condenado a 60 anos de prisão em outro caso, este pela posse de imagens de abuso infantil. 

A atleta encontrou apoio entre familiares e o namorado, Stacy Erving. Simone ressaltou a importância do relacionamento afetivo em sua vida. 

“Significa o mundo e eu o amo até a morte. Ele é um dos meus grandes incentivadores. Assim como minha família. É muito bom tê-la do meu lado”, conta em entrevista ao site Olympic News. 

Passado e presente 

Na era da tecnologia da informação supersônica, as conquistas de Simone Biles representam o mundo para jovens e adultos negros, ainda mais depois de todas as provações que passou, afinal, como diz Mano Brown, “por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor”.

O jornal O Tempo, de Minas Gerais, conversou com única atleta negra da ginástica rítmica do Brasil – país com 54% da população formada por negros. Elyane Boal lamentou a ausência de afro-brasileiros ao seu lado. 

“São poucas as ginastas negras nos campeonatos mundiais. É algo que tornou-se normal, mas não deveria ser”. 

Por isso, a relevância de Daiane dos Santos e da norte-americana Dominique Dawes – primeira pessoa negra a vencer uma medalha de ouro olímpica na ginástica -, deve não só ser exaltada, mas tomada como exemplo para a democratização e implementação da diversidade no esporte. 

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Quem foi o camponês símbolo da luta contra agrotóxicos morto por doença provocada por veneno

Se a vida do camponês argentino Fabián Amaranto Tomasi tornou-se de absoluta dedicação contra os agrotóxicos e seus terríveis efeitos sobre nossa saúde em seu país e no mundo, sua morte é hoje símbolo dessa mesma luta. Falecido aos 52 anos em setembro de 2018, vítima direta do mal que os agrotóxicos podem provocar, Fabián trabalhou por quase dez anos para Molina & Cia. SRL, empresa de pulverização aérea de agrotóxicos e, quando começou a perceber os efeitos do real envenenamento que viria a tirar sua vida, foi que sua luta final começou, conforme conta a tocante matéria do site Pública.

O agricultor argentino Fabián Tomasi

“Estão fazendo da agricultura um campo de concentração”, disse o próprio Fábian, em relato para o livro “Envenenados”, lançado em 2013 pelo jornalista argentino Patricio Eleisegui. “Tenho o corpo seco da cintura para cima. Quase não tenho músculo nenhum, só pele e osso”. Fabián trabalhava diretamente com agrotóxicos como endosulfan, 2,4-D, clorpirifos e glifosato , e foi essa contaminação que o levou a desenvolver neuropatia tóxica – que secaria 30 quilos de seu peso original até sua morte.

Patricio Eleisegui e Fabián em fala sobre o livro

Fabián trabalhava no pequeno vilarejo de Basabilbaso, em Entre Rios, onde nasceu e cresceu – região responsável pela segunda maior produção de arroz e quarta maior produção de soja da Argentina. Seu relato releva que trabalhava para a empresa sem carteira assinada e sem qualquer proteção. Depois que abandonou a Molina & Cia. SRL, chegou a trabalhar como taxista, antes de se aposentar por invalidez – no fim de sua vida, já não era mais capaz de se alimentar sozinho.

Sua motivação, ao fim, foi mostrar ao mundo o efeito que os agrotóxicos causaram em seu corpo, e assim se dedicou até os últimos minutos que pôde.

Fabián com sua família

Sua família jamais recebeu qualquer indenização ou suporte financeiro da empresa que efetivamente assassinou Fabián – que hoje oferece sua história para repensarmos o uso de agrotóxicos, o lucro irrefreável e o que estamos fazendo com nossa alimentação e nossas vidas.

© fotos: divulgação/arquivo pessoal fonte:via