Vale do Loire: a região que concentra o maior número de castelos do Mundo

São onze horas da noite. A temperatura beira os 30 graus e a luz do dia ainda se faz presente em Amboise, no Vale do Loire, região ao norte da França que concentra o maior número de castelos do mundo e está a apenas a uma hora do aeroporto de Paris. A bordo de um Toues, barco concebido há séculos, que pouco mudou com o passar do tempo, navego pelo rio Loire, o mais extenso de toda a França. Ao fundo, a ponte Maréchal Leclerc e as curvas do Château du Amboise se iluminam pelos últimos raios de sol.

À bordo, não só a paisagem e a brisa fresca do verão europeu, mas todas as guloseimas dignas de um piquenique francês.  Patês, queijos e vinhos, de diferentes uvas e safras, todos produzidos na região. Pascal Mineal, proprietário da adega Caves Duhard, também em Amboise e a apenas a alguns metros dali, comanda a degustação e apresenta diferentes rótulos elaborados a partir de uvas cultivadas nesse solo fértil, os Vouvray.

A explosão de sabores envolta em natureza exuberante me faz pensar que não deve ter sido difícil para a nobreza francesa adaptar-se à vida no Loire quando decidiram se estabelecer por aqui, no século 16. Nesse período, centenas de castelos foram erguidos por reis e rainhas das dinastias Bourbon e Valois, trezentos deles abertos até hoje para a visita de qualquer reles mortal. Conhecê-los é sem dúvida a melhor forma de reviver a história da região, que leva o posto de berço do Renascimento na França.

Tudo começou quando a corte convocou artistas e pensadores da vizinha Itália, onde o movimento borbulhava, para estabelecer morada no Loire. Dentre deles, Leonardo da Vinci, que a convite do ­­rei Francisco I, grande mecenas das artes, mudou-se para Amboise em 1515. Reza a lenda que viajou até a França no lombo de uma mula, carregando consigo três pinturas: Mona Lisa, SantÁna e São João Batista. O artista viveu 3 anos no Loire até o seu último suspiro, em 2 de maio de 1519. No ano que vem, a região celebra o aniversário de 500 anos de sua morte com programação especial em todos os châteaus.

Chez Leonardo da Vinci no Vale do Loire

O centro das comemorações será sua última morada, o Château Clos Lucé, que vai sediar a exposição “Leonardo da Vinci, Seus Alunos, a Última Ceia e François 1º”, dentre outras atividades. Uma visita ao palacete permite conhecer réplicas das pinturas e engenhocas desenvolvidas por ele e desvendar algumas curiosidades de seu cotidiano. Leonardo, que viveu no castelo dos 64 aos 67 anos, usava gema de ovo e água da chuva para misturar pigmentos e criar os tons com que pincelava. Passou os últimos anos de sua vida trabalhando em obras encomendadas pelo rei e organizando festas para ninguém botar defeito.

A diversão porém vai muito além do Clos Lucé. Há alguns quilômetros de distância e debruçado sobre o rio Loire está o château  que avistei no bucólico passeio de barco, o Amboise. Reza a lenda que um túnel subterrâneo o conecta ao Clós Lucé, usado nos tempos áureos por Da Vinci para visitar o então amigo Francisco I, que ali viveu por um período de sua vida.

Realeza ostentação

Já disse que visitar o Loire é a melhor forma de reviver a história da França no século 16. Adentrar nessas construções majestosas é se teletransportar para uma outra era, em que todos viviam (ou morriam) em prol da corte real. Os gastos para sustentar a vida boa eram imensuráveis e a realeza era nômade, ou seja, erguia castelos majestosos como o de Amboise e encomendava outros feitos arquitetônicos a altura deste quando cansavam-se da morada atual. Dá para entender bem os motivos que levaram `a Revolução Francesa depois de entrar em contato com tamanha ostentação.

Intrigas, casamentos por interesses territoriais, traições, assassinatos, tudo rolava por aqui. Famoso como morada segura, o château de Amboise ficou conhecido como jardim de infância dos soberanos franceses. Aqui nasceu Charles VIII e foram criados Francisco I e Catarina De Médicis, entre outras figuras importantes da época. “Até Charles VIII ele era murado e com apenas uma entrada e por isso as crianças eram trazidas para cá. Foi Francisco I que derrubou seus muros, por influência do Renascimento”, me conta Izabele Pesinato, da Atout France.

Continuando as curiosidades reais: durante visita ao Chaumont Sur Loire, localizado na mesma comuna que dá nome ao castelo e a 20 minutos de carro de Amboise, Izabele me aponta uma gravura de Catarina de Médicis, que adquiriu o castelo e nele viveu a partir de 1550. O quadro, pendurado em um dos aposentos reais, a ilustra no dia de seu casamento, portando um vestido bordado com pérolas e diamantes, o seu dote. Descubro que era um habito da realeza casar-se trajando toda a fortuna, pois caso houvesse necessidade de fugir do inimigo durante a cerimônia, não seria necessário deixar a riqueza para trás.

Mas não só de memórias antigas vivem os castelos do Vale do Loire. Famoso pela magnífica área externa, o Chaumont Sur Loire mais se parece com um museu a céu aberto e exibe instalações outdoor (e indoor) de artistas que aqui deixaram sua marca após residências. Dentre eles, o brasileiro Henrique Oliveira, que se faz presente com a instalação Momento Fecundo, concebida com madeira compensada. O castelo sedia anualmente o Festival Internacional de Jardins e abriga também um restaurante onde se come literalmente como um rei, o Le Grand Velum.

Programações externas, porém, não são exclusividade do Chaumont Sur Loire. Espetáculos em vídeo mapping pipocam pela região, inclusive no Castelos de Blois, que a partir deste ano passa a revelar sua história por meio de projeções no pátio externo quando a noite cai. Em Chartres, outra comuna do Loire, há mais um experiência imperdível: a magnífica Catedral de Notre Dame também revive tempos áureos por meio de projeções e música, durante o  Chartres Light Show.

Do lado de dentro, uma visita à luz de velas à cripta da catedral, embalada por canto gregoriano e história, leva facilmente às lagrimas. A igreja é Patrimônio Mundial da Unesco, assim como o Château de Chambord, o maior do Vale do Loire, mais um monumento erguido graças aos caprichos de Francisco I, que o habitou por apenas 7 semanas no total.  Famoso mundialmente pela arquitetura renascentista, que mistura estruturas clássicas italianas com formas medievais francesas, o castelo exibe jardins magníficos e um restaurante para se deliciar ao ar livre.

Lar doce lar

Mais um must go da região, o Cheverny não é apenas o castelo que inspirou Hergé a criar o Château Moulinsart, das lendárias Aventuras de Tin Tin. Ele ainda é morada da família Hurault, que desde 1914 abriu parte de suas dependências para a visitação do público. Cheverny conserva o mobiliário e decoração do século XVII e abriga uma exposição interativa permanente de Tin Tin, Les secrets de Moulinsart, que desvenda o universo do personagem e seus amigos num percurso de 700m2.

Felizmente não é preciso fazer parte da família Hurault para dormir num castelo no Vale do Loire. O Chateau de Perreux, a 2 quilômetros de Amboise, passou por restauração e é hoje um hotel boutique com diferentes tipos de quarto. Ali é possível optar entre dormir na torre, no terceiro andar, entre vigas e madeiras expostas, em quartos menores com terraço com vista para o jardim ou ainda numa amplo aposento de 68m, que economiza em paredes e tem banheira a poucos passos da cama.

Na França, nos ares

Uma viagem de uma hora de trem separa o aeroporto de Paris, Charles de Gaulle, da estação ferroviária Gare de Chartres uma das portas de entrada do Vale do Loire. Para facilitar ainda mais a conexão Brasil – França, a Air France inaugurou em maio deste ano um voo direto de Forteleza para Paris, e espera com ele aumentar em 15% o fluxo de turistas brasileiros para a Europa no ano que vem. Em 2017, 1 milhão de brasileiros voaram de e para o Brasil, de acordo com Jean-Marc Pouchol, diretor-geral do Grupo Air France-KLM para a América do Sul.

O aniversário da morte de Leonardo da Vinci é mais um motivo para aproveitar a conexão e visitar a região do Vale do Loire em 2019. A programação completa do evento ainda não foi definida, mas os castelos e outros estabelecimentos prometem luz e festa para a ocasião, como bem gostava o artista.

A jornalista viajou a convite da Atout France e da Air France. /fonte via

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‘Bercy les Bleus’, metrô de Paris faz trocadilho com conquista do bicampeonato na Rússia

Com a conquista do bicampeonato mundial, a seleção francesa acaba de entrar para um grupo seleto ao lado de Argentina e Uruguai. A vitória diante da Croácia provocou uma série de comemorações efusivas nas ruas de Paris.

Para entrar na onda e homenagear esta vitória histórica do time comandado por Deschamps, a RATP – empresa responsável pelas administração do metrô parisiense, resolveu combinar o nome das estações com os técnicos e jogadores, formado frases engraçadas sobre o triunfo.

São trocadilhos animados como o da estação Bercy, que agora se chama ‘Bercy les Bleus’, ou seja, ‘Obrigado Azuis’. Bleus é como os atletas do time francês são comumente chamados.

Outra brincadeira impagável foi o trocadilho envolvendo a estação Charles de Gaulle – Étoile, que por alguns dias vai se chamar ‘On a 2 Étoiles’, ‘Temos 2 Estrelas’, claro destacando a segunda Copa do Mundo vencida pela França. Aliás, o título na Rússia veio 20 anos após a vitória sobre o Brasil em 1998.

Percebe-se que a fama dos franceses de serem mau humorados foi deixada de lado. Pelo menos por enquanto.

Fotos: Reprodução/fonte:via

16 fotografias vintage raras e surpreendentes do cabaré Moulin Rouge

Com mais de 120 anos de história, não há no mundo um cabaré mais conhecido que o parisiense Moulin Rouge. Inaugurada no dia 10 de outubro de 1889, a casa de espetáculos ficou famosa pelas apresentações de grandes dançarinas, e transformou o Cancan em um fenômeno conhecido em todo o planeta.

O nome da casa é inspirado no moinho vermelho que chama a atenção de longe – Moinho Vermelho é exatamente a tradução literal de Moulin Rouge. Artistas franceses, membros da aristocracia e turistas se tornaram frequentadores habituais do local.

Além do moinho, outro item de decoração bastante chamativo foi um enorme elefante de madeira, instalado em 1900, que ficava no jardim, ao lado de um palco menor que o do interior. Havia uma escada que levava à ‘barriga’ da escultura, onde também aconteciam performances.

O Moulin Rouge pegou fogo em 1915, mas foi reconstruído e reinaugurado em 1921. Durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto as tropas da Alemanha nazista ocuparam Paris, o cabaré se tornou ponto de encontro dos soldados, que admiravam as apresentações e as dançarinas.

O Moulin Rouge segue famoso, especialmente depois de inspirar o filme homônimo, de 2001, e continua atraindo turistas do mundo inteiro.

1928

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Fotos: Reprodução/fonte:via

Pela lei atual, imigrante malinês que salvou bebê deveria ser expulso da França

Às vezes, um ato isolado é capaz de expor os paradoxos e a real complexidade de questões imensas que costumeiramente são tratadas de forma simplista e até preconceituosa.

Foi o que se viu diante do gesto verdadeiramente heroico que o imigrante malinês Mamoudou Gassama, de 22 anos, realizou no último sábado, quando escalou quatro andares para salvar uma criança de quatro anos que estava pendurada na sacada de um edifício em vias de cair para uma morte certa.

A cena é angustiante e emocionante mas, diante do final feliz, o ponto nevrálgico da questão se torna o fato de Mamoudou ser, até então, um imigrante ilegal, sem papel – o que, segundo as leis de imigração do atual governo francês, exigiria que o malinês fosse deportado do país.

O presidente Emmanuel Macron, após a façanha salvadora, rapidamente recebeu Mamoudou e concedeu a ele sua cidadania francesa, em um gesto benévolo e justo, mas que expõe não só a complexidade das relações sociais na Europa de hoje, como o preconceito com que se costuma tratar os imigrantes por lá.

Uma exceção foi aberta no caso concreto de Mamoudou, mas a verdade é que ele não é um caso a parte: a sociedade francesa e europeia de modo geral precisa se adaptar, despida de preconceitos e reconhecendo os efeitos do próprio passado colonialista sobre o qual o continente europeu foi levantado no mundo de hoje, e compreender que ela é feita também de imigrantes.

Momoudou chegou no país há poucos meses, vindo de Mali com o sonho de construir uma vida melhor em Paris. Além de se tornar cidadão, o imigrante recebeu também uma medalha por sua bravura, e a oferta de um emprego junto aos bombeiros. Que Mamoudou merece todos os louros e melhorias em sua vida por seu feito, isso é inquestionável – mas a maior homenagem que se pode fazer ao jovem malinês, no entanto, é não trata-lo como uma exceção, e sim como uma oportunidade de se rever a maneira com que a sociedade francês enxerga os imigrantes.

© fotos: divulgação/reprodução/fonte:via

‘É proibido proibir’: Como o maio de 1968 mudou para sempre os limites do ‘possível’

A história costuma ser organizada nos livros e, consequentemente, em nossa memória e imaginário coletivo como uma série de eventos isolados e consecutivos, limpos, legíveis e claros – mas naturalmente que os fatos, enquanto acontecem, não se dão assim. A experiência real dos eventos históricos é muito mais confusa, amorfa, amontoada, emocional e complexa do que a organizada falação de um parágrafo.

Lembrar os eventos de maio de 1968 hoje é admitir e até admirar, pela própria natureza do que aconteceu em Paris há exatos 50 anos, esse aspecto caótico, anárquico, sobreposto e confuso da verdadeira face de qualquer época. A confusão de acontecimentos, direções, conquistas e derrotas, discursos e caminhos – todos, no entanto, direcionados a mudar a sociedade – é a herança mais importante das manifestações de maio de 1968 em Paris.

As revoltas estudantis e operárias que tomaram conta da capital francesa ao longo de algumas semanas no emblemático quinto mês do igualmente icônico ano de 1968 se deram como uma ferida que se abre de forma inclemente na face de sua época, para que todos a vejam antes das interpretações reducionistas, das simplificações parciais, das manipulações tendenciosas – ou, como bem disse o filósofo francês Edgar Morin, maio de 1968 mostrou que “o subterrâneo da sociedade é um campo minado”. Nem a esquerda nem a direita deram conta do significado e dos efeitos das revoltas, que completam cinco décadas como um símbolo da esperança de que um movimento popular possa de fato transformar a realidade – mesmo que de forma difusa e complexa.

Definir, portanto, o que foi maio de 1968, para além dos fatos, não é tarefa simples – da mesma forma que sofremos hoje ao tentarmos compreender e contornar os eventos das jornadas de junho de 2013 no Brasil. Assim como as manifestações que iniciaram naquele junho de cinco anos atrás começaram como um movimento contrário ao aumento de preço no transporte público e se tornaram uma onda de movimentos muito maiores, mais amplos, complexos e paradoxais, os eventos de Maio de 1968 em Paris partiram de demandas estudantis, exigindo reformas no sistema educacional francês. Embalados pelo espírito político da época e pelos protestos e enfrentamentos que tomavam conta de grande parte dos países do ocidente de então, maio de 68 se tornou algo mais simbólico, amplo e atemporal do que somente um debate sobre educação.

As demandas iniciais, partindo de estudantes amotinados no fim de abril na Universidade de Nanterre, no subúrbio de Paris, (e liderados por um jovem e ruivo estudante de sociologia chamado Daniel Cohn-Bendit, então com 23 anos) eram pontuais: por uma reforma administrativa na universidade, contra o conservadorismo vigente nas relações entre estudantes e com a administração, incluindo o direito de estudantes de sexos diferentes dormirem juntos.

Cohn-Bendit sentia, no entanto, que aquela revolta específica poderia se ampliar, e incendiar o país – e ele tinha razão. O que aconteceu no mês por vir iria paralisar a França e quase derrubar o governo, reunindo estudantes, intelectuais, artistas, feministas, operários e muito mais em uma mesma tomada.

A expansão do movimento se deu de forma veloz e urgente, feito faísca em pólvora, até alcançar uma greve geral de trabalhadores que balançaria o país e o governo de Gaulle, envolvendo cerca de 9 milhões de pessoas em paralisação. Enquanto as demandas estudantis eram um tanto filosóficas e simbólicas, as pautas operárias eram concretas e tangíveis, como a redução das jornadas de trabalho e aumento salarial. O que unia todos os grupos era mesmo a oportunidade de se tornarem agentes de suas próprias histórias.

As revoltas levaram Charles de Gaulle a convocar novas eleições para o mês de junho, e o presidente viria a vencer esse pleito, mas sua imagem jamais se recuperaria dos eventos – de Gaulle passou a ser visto como um político velho, centralizador, excessivamente autoritário e conservador, e o general, uma das figuras mais importantes de toda história moderna da França, renunciaria à presidência no ano seguinte, em abril de 1969.

Ainda assim, é hoje mais eficaz compreender a herança de maio de 1968 como uma revolução social e comportamental, mais do que uma revolução politica. Daniel Cohn-Bendit se tornaria figura símbolo dos fatos, através principalmente da icônica foto em que aparece sorrindo para um policial – que seria, para ele, a definição imagética de que a luta ali não era só política, mas também de vida, pela diversão, pela libertação, por aquilo que os fazia sorrir, do sexo às artes.

Acima, a icônica foto de Cohn-Bendit; abaixo, o mesmo momento sob outro ângulo

 

Após esse primeiro momento, a universidade de Nanterre acabou fechada nos dias seguintes, e diversos estudantes foram expulsos – o que levou a novas manifestações na capital, em especial na universidade de Sorbonne, que após uma grande manifestação no início de maio, acabou invadida pela polícia e também fechada. Passados alguns dias de um frágil acordo, que levou as universidades a serem reabertas, novas manifestações aconteceram, agora já com forte enfrentamento entre a polícia e os estudantes. A partir de então, o campo minado do subterrâneo da sociedade, citado por Morin, enfim explodiu.

Cenas de enfrentamento no Quartier Latin, nos arredores da Sorbonne, entre estudantes e policiais

A noite do dia 10 para o dia 11 de maio ficou conhecida como “Noite das barricadas”, quando carros foram virados e queimados, e os paralelepípedos foram transformados em armas contra a polícia. Centenas de estudantes foram presos e hospitalizados, assim como foram uma boa dezena de policiais. No dia 13 de maio, mais de um milhão de pessoas marcharam pelas ruas de Paris.

As greves, que haviam começado dias antes, não retrocederam; os estudantes ocuparam Sorbonne e a declararam uma universidade autônoma e popular – o que inspirou os operários a fazerem o mesmo, e o ocuparem suas fábricas. Até o dia 16 do mês, cerca de 50 fábricas estariam paralisadas e ocupadas, com 200 mil operários em greve no dia 17.

No dia seguinte, os números chegariam a mais de 2 milhões de trabalhadores – na semana seguinte, os números explodiriam: quase 10 milhões de trabalhadores em greve, ou dois terços da força de trabalho francesa, se juntariam aos estudantes em paralização. Um detalhe importante é que tais greves aconteceram contrariando as recomendações dos sindicatos – eram uma demanda dos próprios operários, que ao fim conquistariam aumentos salariais de até 35%.

Enquanto a classe operária francesa se juntava à luta, as multidões tomavam as ruas diariamente e cada vez mais, apoiados pelo Partido Comunista francês, com seus imaginários incendiados pela “Ofensiva de Tet” e o início da lenta derrota americana no Vietnã, enfrentando a polícia com pedras, coquetéis molotov, barricadas, mas também com slogans, cantos e pichações.

Do célebre “É proibido proibir” imortalizado em canção por Caetano Veloso por aqui, os sonhos, concretos ou simbólicos, tornaram-se pichações pelos muros da capital francesa, que perfeitamente significavam a amplitude das demandas que tomaram as ruas de Paris: “Abaixo a sociedade de consumo”, “A ação não deve ser uma reação, mas uma criação”, “A barricada fecha a rua, mas abre a via”, “Corram camaradas, o velho mundo está atrás de você”, “Debaixo do calçamento, a praia”, “A imaginação toma o poder”, “Sejam realistas, exijam o impossível”, “A poesia está na rua”, “Abraça o teu amor sem largar tua arma” e muito mais.

O presidente de Gaulle chegou a deixar o país e esteve perto de uma renuncia, assim como a possibilidade de uma revolução real e uma tomada de poder pelos comunistas parecia cada vez mais tangível. O general, no entanto, retornou a Paris e decidiu por convocar novas eleições, com as quais os comunistas concordaram – e assim a possibilidade de uma revolução política concreta foi deixada de lado.

A vitória do partido do presidente nas eleições foi massiva, mas não se tratou de uma vitória pessoal para de Gaulle, que viria a renunciar no ano seguinte. Os eventos de maio de 1968, no entanto, foram um ponto histórico incontornável na história da França e do ocidente até hoje – para lados diversos. Alguns os veem como a possibilidade de libertação e transformação conquistada pelo povo, nas ruas – outros, como a ameaça real da anarquia derrubando as conquistas democráticas e as bases republicanas.

A verdade é que ninguém até hoje deu conta de realmente explicar os eventos em sua totalidade – e talvez essa seja parte fundamental de seu sentido: não é possível defini-lo em um só gesto, adjetivo ou mesmo orientação política e comportamental.

Se as conquistas políticas foram tímidas diante da dimensão do movimento, as conquistas simbólicas e comportamentais foram e permanecem imensas: ali pode se dizer que também se plantaram sementes da força do feminismo, da ecologia, dos direitos homossexuais, de tudo que sublinhava o entendimento de que a revolução e as melhorias não deveriam se dar somente no escopo da política institucional, mas também na libertação da vida das pessoas – também no aspecto simbólico e comportamental.

A relação entre pessoas, com o estado, a política, o trabalho, a arte, a escola, tudo foi posto em abalo e revisão – e é por isso que a força daquele mês nas ruas de Paris permanece. Tratam-se, afinal, de demandas um tanto incontornáveis, que ainda carecem de olhares, mudanças, abalos. O próprio sonho de que a vida pode e deve ser diferente, e que essa mudança há de ser conquistada pelas mãos das pessoas, é o combustível que ainda se acende quando pensamos em maio de 1968 – um momento em que os discursos deixaram o aspecto frio e técnico da racionalidade e se transformaram em gestos, em luta, em ação. De certa forma tais revoltas empurraram a França na direção do futuro, e modernizaram as relações sociais, culturais e comportamentais que passaram a pautar o país.

Em meio à confusão de sentidos, desejos e acontecimentos que marcaram aquele momento, o filósofo francês Jean-Paul Sartre entrevistou Daniel Cohn-Bendit no próprio mês de maio – e dessa entrevista talvez seja possível retirar a definição mais efetiva e bela do que foi maio de 1968. “Existe algo que surgiu de vocês que assombra, que transforma, que renega tudo o que fez de nossa sociedade o que ela é”, diz Sartre. “Trata-se do que eu chamaria de expansão do campo do possível. Não renunciem a isso”. O entendimento de que o que era considerado possível, após a tomada das ruas, havia se expandido, e de que os sonhos, anseios, desejos e lutas poderiam almejar mais e melhores transformações foi, segundo Sartre, a grande conquista do movimento – e é, ainda hoje, seu maior legado.

Fotos: Jacques Haillot/Bruno Barney (Magnum Photos)/Gilles Caron/Reprodução/fonte:via

A ‘livraria’ francesa onde você pode, literalmente, passar a noite

Apaixonados por livros que pretendem visitar Paris têm um novo motivo para planejar a viagem: foi inaugurado há pouco tempo na capital francesa uma espécie de quarto de hotel inspirada em clássicas livrarias parisienses.

Chamado, sem surpresas, de La Librarie, o local faz parte de um projeto chamado Paris Boutik, que tem como objetivo transformar antigos pontos comerciais – boutiques – em acomodações temáticas, na tentativa de oferecer experiências únicas e que apresentem uma outra sensação do estilo de vida local.

A Librarie tem 45 metros quadrados, com duas suítes, sala e cozinha, podendo acomodar até quatro pessoas. Mais de 4 mil livros fazem parte do ambiente, cujo projeto teve atenção especial para o isolamento acústico – estando lá dentro é praticamente impossível ouvir ruídos externos.

Já há um apartamento temático de mercearia disponível, e a empresa pretende abrir os próximos três em breve: uma loja de vinhos, uma venda de queijos e um estúdio de moda.

Fotos: Divulgação/fonte:via

Esse cara surpreendeu seus companheiros de viagem com as fotos mais divertidas

Recentemente, o ilustrador britânico James Nathaniel fez uma viagem com uma turma de amigos para o sul da França. Como ele era o único que entendia de photoshop, ficou responsável por dar uma tratada básica nas fotos da galera.

O que ninguém esperava é que James, munido de muito bom-humor, iria transformar seus colegas e até mesmo ele próprio em criaturas pequenas e cabeçudas. “Eu gosto de transformar eu e meus amigos em crianças aumentando nossas cabeças grandes nas fotos”, disse o artista.

O resultado é o álbum de fotos de férias mais inusitado e divertido dos últimos tempos! Confira:

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Imagens © James Nathaniel /fonte:via