Lutando pelo óbvio: mobilização reivindica trocadores em banheiros masculinos

Os efeitos do machismo, dos padrões desiguais e da normatização de gênero podem ser percebidos em diversas camadas de nossas vidas – até mesmo na arquitetura de banheiros. Com um post o americano Donte Palmer revelou um exemplo evidente dessa lamentável realidade: o fato de praticamente nenhum banheiro masculino oferecer trocadores para que os pais possam trocar a fralda de seus filhos e filhas. A foto mostra o esforço de Donte ao ter que fazer a troca com seu filho sobre suas pernas.

No post, Donte fala sobre como ele com frequência precisa fazer o malabarismo da foto para conseguir trocar a fralda do filho em um banheiro público. “É como se não existíssemos”, ele diz enquanto pai. E esse claramente não é um problema circunscrito ao estado da Flórida, nos EUA, de onde Donte escreve – por todo o mundo, inclusive no Brasil, restaurantes e todo tipo de estabelecimento público não oferece um local limpo e seguro dentro do banheiro masculino para que os pais possam realizar a troca.

Aos 31 anos, Donte com seu post se tornou a face de um movimento que exige que os banheiros instalem trocadores nos banheiros masculinos. Trata-se, para além da afirmação politica e cultural, de uma necessidade real, seja para que as tarefas possam ser divididas entre o pai e a mãe, seja para os tantos pais que passam uma parte do tempo sozinho com seus filhos possam cuidar das crianças quando na rua. Na página de Donte no Instagram ele vem compartilhando outros pais que aderiram ao movimento e postaram fotos em situações similares.

Pode parecer um detalhe, mas é em verdade um símbolo e uma necessidade óbvia – algo que precisa urgentemente ser corrigido.

© fotos: Instagram/fonte:via

Anúncios

Uma em cada quatro mulheres é vítima de violência obstétrica no Brasil

Não há dúvidas, ser mulher no Brasil é uma missão arriscada. Morar em dos países mais machistas do mundo é conviver diariamente com todos os tipos de agressões. Entre elas está uma prática comum, mas silenciosa e que atinge cada vez mais mulheres.

Um levantamento feito pela pesquisa Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Público e Privado, comandado pela Fundação Perseu Abramo e o Sesc, aponta que uma em cada quatro mulheres já foi vítima de violência obstétrica.

Parte dos costumes de uma sociedade acostumada com métodos opressivos, ela atinge a paciente por meios e formas diversas e caracteriza-se pela apropriação do corpo e processos reprodutivos da mulher pelos profissionais da saúde. Desumanização, abuso de medicamentos, ofensas e até mesmo abusos sexuais, são tipificados como violência obstétrica.

Para jogar luz sobre o assunto, as advogadas Maria Luiza Gorga e Ana Paula Cury produziram um estudo acompanhado de um ensaio fotográfico registrando as formas de agressões obstétricas. Violência obstétrica: o que é e os direitos da parturiente mostra frases proferidas com frequência em consultórios médicos Brasil adentro.

“Cala a boca. Fica quieta senão eu vou te furar todinha”.

“Se você continuar com essa frescura, eu não vou te atender”.   

“Na hora de fazer, você gostou né?!”

Os exemplos acima fazem parte do estudo e são manifestações explícitas de casos de violência obstétrica. Entretanto, nem sempre é assim. Em muitas ocasiões, o método acontece de forma velada e travestido de supostos protocolos institucionais. O viés racial também se faz presente na história.

Entre mulheres negras, é comum ouvir relatos de médicos que recusam a aplicação de anestesias ou que realizam o exame de toque de forma dolorosa. Segundo elas, estes profissionais se valem de uma máxima racista de que a mulher negra “é mais forte”.

Cerca de 60% das mulheres vítimas de morte materna são negras. É necessário dizer que a morte materna, em 90% das situações, pode ser evitada com o atendimento correto. Em 2015, o caso de Rafaela Cristina Souza dos Santos, de 15 anos, chamou a atenção do país todo.

Mulher e negra, a adolescente acabou morrendo depois de dar à luz em uma maternidade do Rio de Janeiro. O atendimento (ou a falta dele) foi negligente, fazendo Rafaela esperar cinco horas pelos médicos. Ela foi forçada a escolher pelo parto normal e o método só foi descartado quando os médicos perceberam que Rafaela apresentava um quadro de eclampsia. Tarde demais para a cesariana.

“O espaço do cuidado e da assistência à saúde, assim como os seus profissionais, deveria garantir minimamente que as mulheres tivessem os seus riscos de adoecer e morrer reduzidos, no entanto, por conta de uma estrutura de sociedade opressora, desigual e preconceituosa, coloca a vida das mulheres em risco a cada momento que elas entram nos serviços de saúde”, afirma Emanuelle Goes – enfermeira e coordenadora do Programa de Saúde das Mulheres Negras – Odara Instituto da Mulher Negra.

Para denunciar, reúna o máximo de provas que puder, faça um Boletim de Ocorrência ou uma denúncia por escrito ao Conselho Regional de Medicina de sua cidade.

Fotos: Reprodução /fonte via

Pesquisador de tartarugas tem prêmio cassado por foto com mulheres de biquíni

A entrega do prêmio Herpetólogo de Destaque precisou ser cancelada depois do surgimento de fotos de mulheres de biquíni relacionadas com Richard Vogt. De acordo com matéria do jornal Folha de São Paulo, o cientista especializado há mais de 20 anos no estudo de tartarugas, teve a honraria em reconhecimento ao seu trabalho retirada depois de queixas de membros do comitê julgador.

Durante a palestra no evento, chancelado pela Liga Americana de Herpetologia, Henry Mushinsky – professor emérito da University of South Florida, pediu a colocação de tarjas para impedir a exibição de partes dos corpos das mulheres em trajes de banho. Para o educador, a exibição das imagens poderia causar constrangimentos.

A apresentação seguiu com as tarjas, mas sem autorização de Vogt, que criticou a atitude. Willem Roosenburg, pesquisador da Universidade de Ohio e atual presidente da Liga, assegura que a colocação das tarjas foi feita sem consenso entre membros do comitê.

As fotografias são de pesquisadoras e estudantes, que enquanto interagem com as tartarugas, são fotografas em roupas consideradas impróprias. Segundo algumas pesquisadoras, que preferiam não se identificar, o professor Vogt fazia piadas recorrentes de cunho sexual em suas apresentações.

O fato gerou uma série de críticas nas redes sociais. Em função da grande repercussão negativa, membros do comitê científico se reuniram e resolveram retirar o prêmio. Apesar de algumas fotografias mostrarem homens, entre eles o próprio pesquisador, a mudança foi feita, de acordo com Roosenburg, por causa das constatações de constrangimento.

“O professor é conhecido por possuir comportamento inapropriado em relação às mulheres. Infelizmente, o professor tem uma reputação de longa data de usar fotos inapropriadas em suas apresentações e a decisão de censurá-las foi tomada por essas atitudes serem consideradas ofensivas e não profissionais”, relatou.

Em e-mail enviado ao New York Times, Richard Vogt se defendeu dizendo não “haver nenhuma conotação sexual ou indecência nas fotos. É muito triste que isso tenha acontecido comigo, membro do comitê há mais de 50 anos”.

A objetificação do corpo feminino, assim como casos de assédio contra mulheres no campo da ciência não são novidade e já fizeram parte da pauta do movimento #MeToo. A revista norte-americana Quartz dá conta que mais da metade de mulheres estudantes de medicina em 2018 disseram ter sofrido algum tipo de abuso durante a graduação.

Em 2014, um estudo apontou que ao menos 64% dos cientistas acusados de comportamento sexual inapropriado cometeram os atos ilícitos enquanto trabalhavam. Os assédios ocorreram durante coleta de dados e em pesquisa de campo.

Por outro lado, a censura também pode ser um sério indício de hiper sexualização do corpo da mulher por parte do comitê que decidiu pelo veto. Sem uma apuração mais aprofundada do caso fica difícil emitir algum juízo de valor. O corpo nu de uma mulher, assim como de biquíni, não deveria ser objeto de censura nem, tampouco, de comentários sexuais ou abusos. Resta saber, no caso relatado, se a objetificação partiu de um lado, de outro, ou de ambos.

Fotos: Reprodução /fonte:via

Em decisão histórica Nigéria oficializa a proibição da mutilação genital feminina

A mutilação genital feminina na Nigéria é um tema que está em voga há algum tempo. De um lado estão os defensores a manutenção de tradições. Do outro mulheres e pessoas que acreditam na importância de cessar práticas machistas.

Em meio ao cenário de debate, o presidente Goodluck Jonathan aprovou criminalização da mutilação genital feminina na Nigéria. Considerado o último ato de seu mandato, já que Jonathan foi derrotado no pleito eleitoral por Muhammadu Buhari, a lei federal representa uma mudança de postura do país da África Ocidental.

A medida, que também prevê punição aos homens que abandonarem suas mulheres e filhos, vai contribuir para a diminuição deste hábito mutilatório. De acordo com levantamento feito por entidades de defesa dos direitos humanos, a mutilação feminina atingiu 25% das mulheres nigerianas entre 15 e 49 anos. A ONU revelou em 2014 que o ato gera infertilidade, perda do prazer sexual, além de oferecer risco de morte causado por possíveis infecções.

Cercada por um debate que envolve tradição, mas também direito ao próprio corpo, a proibição da mutilação feminina traduz uma mudança oriunda do desenvolvimento social. Não se trata de um fim aos costumes tradicionais, mas de uma adequação aos tempos modernos.

“É crucial que continuemos com os esforços de mudanças de visões culturais que permitem a violência contra a mulher. Só assim esta prática agressiva terá um fim”, declarou ao The Guardian Stella Mukasa, diretora do núcleo de Gênero, Violência e Direitos do Centro de Pesquisas da Mulher.

Foto: Pixabay/fonte:via