Descoberta de 10 mil anos revela os rituais mortuários dos primeiros brasileiros

Entender como as populações ancestrais lidavam com a morte é também uma maneira de entender a cultura e a própria vida dos primeiros brasileiros, que habitavam nossa região num período entre 8.000 e 10.500 anos atrás. Numa caverna em Matozinhos, cidade de Minas Gerais, num local conhecido como Lapa do Santo, o arqueólogo André Strauss lidera uma série de expedições que descobriram verdadeiros enigmas em restos mortais: falanges de dedos cortadas de forma regular, como peças de lego, ossos quebrados, pinturas feitas com pigmento ocre, restos queimados, remontagem de ossos de partes de esqueletos diferentes ou mesmo de pessoas diferentes.

Os pesquisadores sugerem se tratar de hábitos simbólicos e complexos, sobre possíveis rituais realizados por tais populações com seus mortos. Foi na mesma região, de Lagoa Santa, em Minas Gerais, que o crânio de Luzia, a mais antiga brasileira que se tem notícia, foi encontrado.

Mais de 40 sepultamentos já foram descobertos, e os rituais mortuários na região foram divididos em 3 fases, de acordo com a idade de seus mortos: a primeira, mais simples, em que os mortos foram simplesmente enterrados flexionados; a segunda, de intensa manipulação dos restos, com queimas, amputações, separações ósseas, quebras e encaixes; e a terceira, com ossos desarticulados e quebras propositais.

Acima, crânio manipulado; abaixo, folha impressa em pedra

Na fase 2, crânios foram utilizados como receptáculos para restos de queima e dentes arrancados. A complexidade dos rituais contrasta com a simplicidade dos instrumentos encontrados, e a mistura de ossos de criança com ossos adultos pode indicar, para os pesquisadores, uma demarcação ritualística do ciclo da vida humana – da juventude à velhice. Há ainda muita pesquisa pela frente, e o apontamento da importância de tais investimentos para descobrirmos nossa ancestralidade, e sabermos da onde viemos, para assim, sabermos mais sobre nós e, dessa forma, para onde vamos.

Lâmina de pedra

© fotos: Maurício de Paiva/fonte:via

Esta vila medieval fazia enterros a prova de zumbis

Zumbis parecem uma preocupação moderna, mas a verdade é que já fazem séculos que as pessoas têm medo de cadáveres levantando de suas sepulturas para atormentar os vivos.Na Inglaterra, arqueólogos encontraram evidências de métodos medievais de enterro que parecem ter sido realizados para evitar que os mortos caminhassem.

A descoberta

Os pesquisadores revisitaram um poço de restos humanos desenterrados em Wharram Percy, uma aldeia abandonada em Yorkshire, de quase 1.000 anos atrás.Os cadáveres foram queimados e mutilados após a morte, e os arqueólogos ofereceram duas explicações possíveis para isso: ou a condição dos cadáveres era devido ao canibalismo, ou os corpos foram desmembrados para garantir que não se tornassem “zumbis”.

O principal autor do estudo, Simon Mays, biólogo que estuda esqueletos da Inglaterra Histórica, disse que a ideia de que os ossos “são os restos de cadáveres queimados e desmembrados para impedi-los de levantar de suas sepulturas parece se encaixar melhor com as evidências”.

Literatura

Quando os ossos foram escavados pela primeira vez na década de 1960, eles foram originalmente interpretados como datando de cemitérios mais antigos, talvez da era romana, inadvertidamente perturbados e reenterrados por aldeões no final da Idade Média.

No entanto, datação por radiocarbono mostrou que os ossos eram contemporâneos com a cidade medieval, e análises químicas revelaram que os esqueletos eram de pessoas locais.Na época, os aldeões acreditavam que a reanimação poderia ocorrer quando indivíduos que tinham uma força vital forte cometiam maldades antes da morte, ou quando os indivíduos experimentavam uma morte repentina ou violenta.

Para impedir que esses cadáveres assombrassem os vivos, textos medievais ingleses sugerem que os corpos eram desenterrados, queimados e mutilados.


Walking Dead

O que aconteceu com os cadáveres após a morte poderia muito bem ser uma cena atual de um filme zumbi sangrento.Os ossos de Wharram Percy vieram de pelo menos 10 pessoas entre as idades de 2 e 50. Padrões sugerem que os corpos foram incendiados quando os ossos ainda tinham carne neles. Os cientistas também encontraram marcas de corte consistentes com desmembramento e decapitação após a morte.

“Se estamos certos, então esta é a primeira boa evidência arqueológica que temos dessa prática”, disse Mays. “Ela nos mostra um lado negro das crenças medievais e fornece um lembrete gráfico de como a visão medieval do mundo era diferente da nossa”.

Mistérios

Há ainda alguns mistérios sobre os ossos, como a forma como os restos acabaram juntos neste poço em particular, especialmente desde que abrangem os séculos 11 a 13. Também não está claro por que, se os corpos eram temidos, foram reenterrados em um contexto doméstico.

Reconstrução da vila

Além disso, os “zumbis”, pelo menos de acordo com fontes escritas em inglês, eram comumente associados a homens adultos, mas esqueletos de ambos os sexos e até crianças foram encontrados no poço.

Segundo Stephen Gordon, um estudioso de crenças sobrenaturais medievais e modernas, evidências escritas nas crônicas inglesas se concentram em homens, mas representam apenas uma das realidades da crença cotidiana.

“Um bispo do Sacro Império Romano, Burcardo de Worms, escrevendo por volta de 1000 dC, alude ao fato de que as crianças que morreram antes do batismo, ou mulheres que morreram no parto, andavam após a morte e precisavam ser ‘transfixadas’”, Gordon disse ao portal LiveScience.

Ele também apontou para outro caso relatado pelo cronista boêmio Neplach de Opatovice, do século 14, em que um cadáver feminino errante teve de ser cremado. “Como tal, é possível que as pessoas acreditassem realmente que mulheres podiam andar após a morte”, sugere.Fonte: [LiveScience]