Com 30 mil imagens da cultura afro-baiana, fotógrafo vê acervo ameaçado






Filho de uma lavadeira de roupas e um estivador. Nascido e criado na periferia de Salvador. Lázaro Roberto sempre se interessou pelos movimentos e festas populares da capital da Bahia.

Há 30 anos, sua vida se transformou e ele conseguiu, finalmente, realizar o sonho de documentar o que seus olhos tanto se interessavam. Com a fotografia, o artista iniciou a construção de um dos maiores acervos da cultura afro-baiana que se tem notícia.

“Eu sou uma pessoa que nasci em Salvador. Salvador é minha casa. Nasci e cresci vendo essa realidade. Quando eu consegui uma máquina fotográfica para ir à rua, já estava ambientado”, conta em conversa com a reportagem do Hypeness.

O desenvolvimento da consciência negra em Salvador foi retratado pelas lentes de Lázaro

Com a humildade e determinação de quem sabe como funcionam as estruturas sócio-raciais soteropolitanas e brasileiras, Lázaro Roberto luta para manter viva a memória negra da Bahia. “Até os 17 anos, carreguei trouxa de roupa na cabeça pra levar na casa dos brancos. É uma realidade conhecida”, dá o recado.

Ao lado de Raimundo Monteiro e Aldemar Marquês, ele criou o Zumvi Arquivo Fotográfico. Na década de 1990, o local se abrigava em um casão na Igreja Nossa Senhora da Penha, na Ribeira. Diante da falta de patrocínio, o acervo de 30 mil imagens está acomodado em um quarto nos fundos da sua casa no bairro periférico da Fazenda Grande do Retiro.

São 30 mil fotogramas alocados nos fundos da casa de Lázaro em Salvador

O Zumvi Arquivo Fotográfico leva a realidade da fotografia como discussão para as pessoas se verem. Antigamente, a gente não conseguia se ver. A fotografia tem um papel muito importante, com ela podemos ver como eram as coisas no passado e como são hoje. Acho fundamental que as pessoas toquem nas imagens, se observem, se vejam. É meu papel de fotógrafo e da minha entidade, Zumvi Arquivo Fotográfico.

Os registros são diversos e abrangem o período de 1978 a 2013, época onde a cultura da Cidade da Bahia pulsava. Lázaro registrou o nascimento e desenvolvimento do Movimento Negro e nuances do cotidiano peculiar da metrópole. No entanto, o que mais encheu seus olhos foram os passeios na Feira de São Joaquim.

A vida negra do Pelourinho pelo olhar de Lázaro Roberto

Um dos lugares que eu gosto muito de fotografar e estou lá até hoje, é a Feira de São Joaquim. Foi um dos primeiros trabalhos que fiz aqui em Salvador. O primeiro lugar que eu comecei a andar, fotografar muito, mesmo de forma despretensiosa. Fotografo lá desde o final dos anos 1980. Foi o lugar que eu peguei a máquina para ir aos fins de semana. No começo dos anos 1990, um amigo meu historiador viu as fotografias e propôs que fizéssemos um trabalho. Ele é o Jorge Antonio do Espírito Santo. Dentro de um ano, a gente conseguiu fazer uma exposição resgatando o trabalho do negro. De Água de Meninos que eu não conheci, a São Joaquim. Foi um trabalho muito interessante, que me deu página de jornal, participei de seminário, fui pra Recife.

Lázaro tenta explicar algo que se conhece apenas sentindo. A Feira de São Joaquim fica no caminho para a Cidade Baixa e ganhou fama pela diversidade. Entram em cena homens e mulheres, todos negros, andando apressados pra lá e pra cá pelas intermináveis vielas. Os feirantes carregam folhas de todos os tipos, peixes, frutas e camarão seco, enquanto se confundem com o branco e as contas do povo de Candomblé, que sai em busca de elementos para o culto aos orixás.

O Candomblé é alvo dos olhares constantes do fotógrafo

Por meio da fotografia, Lázaro Roberto dava visibilidade aos rostos e histórias destas pessoas. É a máxima de acomodar o protagonismo nas mãos dos donos do espetáculo. 

“A gente questionava a hereditariedade sobre o trabalho do negro. São muitos negros trabalhando lá. Eu construí uma história trabalhando dentro daquela feira. É uma feira muito rica, o trabalho da mulher, os saveiros, as crianças, o artesanato, os produtos de religiosidade de matriz africana. Só de dentro da Feira de São Joaquim, eu possuo mais de três mil fotogramas. Construí uma história”, conta orgulhoso.

A rotina de Paripe na década de 1990. Orgulho de ser negro

Certamente você já se deparou com imagens antigas e contemporâneas da Feira de São Joaquim. Agora, será que se questionou sobre a origem do fotógrafo? Normalmente, tais imagens são capturadas pelo olhar de pessoas brancas, muitas vindas do exterior. Caso do francês Pierre Verger, que por décadas retratou a rotina da Salvador do século 20.  

Mãe Ilda Jitolú no Carnaval de 92, no Curuzu

A qualidade do trabalho de Verger não está em questão, mas enquanto o francês tem livro e fundação, Lázaro Roberto luta para preservar o arquivo de três décadas. “Você percebe que é questão de condição. A fotografia era um espaço para brancos. Eu consegui, com muito custo, produzir muitas imagens e criar o Zumvi Arquivo Fotográfico. Para nos fortalecemos”.

O profissional de 60 anos acredita que o racismo é uma das barreiras para o sucesso maior do Zumvi e fotógrafos negros em geral como Bauer Sá e nomes da nova geração.

Ainda em ritmo de Carnaval…

É uma questão do racismo que existe em Salvador e no Brasil, que impede que o negro avance e consiga seu espaço. Daí a importância da fotografia, porque muita gente não me conhece, sou um fotógrafo começando a ter visibilidade agora. Aqui em Salvador, as pessoas não me conhecem. Então, quando elas veem esse conjunto de imagens de pessoas negras, pensam que eu sou branco! É uma imagem que está incutida na cabeça das pessoas. Hoje eu me sinto mais à vontade, diante da quantidade de fotógrafos negros jovens. Me sinto até mais aliviado.

O grande entrave para Lázaro e outros fotógrafos negros é o acesso. Fotografia é uma profissão cara, os equipamentos, a formação, tudo consome bastante dinheiro. Lázaro conseguiu a primeira máquina em 1982. No caso de Salvador, com 90% da população de homens e mulheres da pele preta, essa disparidade choca e revolta.

Festas populares como a de Iemanjá ganham outro significado com o olhar de fotógrafos negros

“Eu saí documentando a cultura negra e festas populares em Salvador. Foi ali que eu aprendi muito comigo mesmo, com minhas andanças pelas feiras, o Carnaval e o próprio Movimento Negro. Só que, na minha trajetória, não vi fotógrafos negros”.

Lázaro lembra que no início, amigos e conhecidos se espantavam em vê-lo com uma câmera no pescoço. A curiosidade era motivo de chacota. “Acho que foi isso que me deu força para documentar, porque lembro que quando saía com máquina fotográfica, as pessoas me olhavam. Brincavam comigo, ‘você agora é turista, é?’. Depois eu fui entender que não se via negro documentando. A gente via esses instrumentos na mão do branco. Mesmo eu, que já tinha consciência de que queria fazer documentação, memória”.

Questionar também é arte

A Salvador de verdade

Salvador é um dos municípios mais visitados do Brasil. Aliás, soterópolis é a única do Brasil presente em um guia do New York Times com as cidades do mundo para se visitar em 2019. O turismo da região se caracteriza pelas expressões negras e a forte representação histórica presente nas fachadas de casarões e nas intermináveis de igrejas (são 372).

Contudo, a impressão que fica é a de que o negro é utilizado como instrumento de promoção do turismo pelo poder público. E só. A mesma Salvador das baianas do acarajé e da cor esmeralda dos mares, é a de Periperi e Uruguai, bairros que sofrem com a falta de investimento. Lázaro faz questão de contar estas histórias.

A Feira de São Joaquim ainda é um dos lugares favoritos do fotógrafo

“No Carnaval, você vê o negro fazendo o pior trabalho, segurando corda para os brancos brincarem. Você vê toda a cidade vendendo para ver se consegue uma grana. Eu fotografei muita palafita, que aqui em Salvador também chamamos de alagado. Você vê esse tipo de moradia e depois vai na Barra, Pituba ou Caminho das Árvores [bairros de classe média alta] e nota as diferenças. Eu não optei, tive que fotografar minha própria realidade”, salienta.  

O negro tem que ser o protagonista do Carnaval

Uma questão de visibilidade

Embora grande parte do arquivo fotográfico de Salvador tenha sido registrado por pessoas brancas, Lázaro Roberto sabe do poder de seu trabalho na autoestima negra. Durante todo esse tempo, ele foi percebendo os impactos da visibilidade e como a fotografia pode se tornar importante instrumento de mudança.

“Por isso digo que sou fotógrafo documentarista. Estava nas festas populares, estava no Carnaval, no Movimento negro, em palestras, dentro destes espaços, na rua. Eu conheço a minha casa. Eu pego minha máquina e vou à feira, festas populares. Eu fui, enquanto negro, construindo essas memórias. Estou atento ao apartheid que há dentro de Salvador”.

A Salvador que não está no guia de turismo

A festa predileta de Lázaro é a Lavagem do Bonfim, que acontece toda a segunda quinta-feira do mês de janeiro. A segunda maior festa popular da Bahia cultua o santo católico, mas também presta respeitos à Oxalá. Homens e mulheres, o povo de santo, baianas do acarajé, todos sobem a Colina Sagrada para celebrar a fé. O festejo começa em frente à Igreja da Conceição da Praia e depois do Culto Ecumênico, segue por oito quilômetros até a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim.

Eu fotografo a lavagem há muito tempo. Do tempo que tinham carroças, a gente chegava lá cedo e ainda é, apesar de tudo, uma das festas que o povo consegue mexer com toda a cidade. Antigamente, você via muitas peculiaridades na festas. As carroças, os vendedores de rolete de cana, pessoas vendendo chapéu. Você via durante os oito quilômetros de festa uma novidade atrás da outra. Bandinhas, qualquer um saía. Hoje tá tudo mudado. Organizou demais. Não se organiza povo. Quando se organiza demais, se perdem algumas tradições.

Lázaro não cansa de clicar a Lavagem do Bonfim

Sabe a consciência negra? Ela se reflete em dias como a Lavagem do Bonfim e o 2 de Fevereiro. Tem coisa que melhor que uma criança da periferia ter o retrato feito por um fotógrafo profissional? Melhor, que esse fotógrafo entenda as origens e o que significa ter a pele da cor da noite. Não é uma questão de caridade. É construção coletiva e empatia.

A consciência do meu trabalho é muito importante para uma consciência negra. Eu sempre digo que a minha própria fotografia me deu consciência. Quando eu comecei a fotografar na rua, foi aí que eu vi que minha cidade era negra. Eu praticamente vi o Movimento Negro surgir em Salvador. Mas sempre afirmo que foi a minha fotografia que contribuiu muito com a minha consciência racial.

Sobre consciência negra…

Nesse sentido, a democratização proporcionada pela tecnologia não deve ser desconsiderada. Pelo contrário. Os telefones celulares ocupam o espaço de formação, que passa inicialmente pela construção de uma imagem positiva.

A democratização da fotografia, até chegar hoje com o celular, fez com que as pessoas se fotografassem mais. Existem muitos fotógrafos engajados, principalmente dentro do Movimento Negro, fazendo um trabalho de desconstrução da nossa imagem do tempo da escravidão. A imagem dos meios de comunicação, que a Globo usa na novelas e filmes.   Hoje, a gente enquanto negro fotografando, pode desconstruir essa imagem. Na moda, a gente não via negro, hoje já os negros estão desfilando. A imagem corre o mundo e você percebe que pode estar ali. Reverbera para outras pessoas que podem conhecer sua beleza. Inclusive, é um trabalho que eu enquanto fotógrafo, tento fazer. Desconstruir essa imagem de homens e mulheres tidos como feios. Você ressignifica a imagem, trazendo para o campo da beleza. A fotografia tem um papel fundamental na luta antirracista que a gente vem travando há séculos. Dentro do empoderamento dos jovens, das pessoas. É importante você saber usar o instrumento, saber usar a fotografia para desconstruir imagens negativas.

Lázaro luta para que seu acervo não se perca

Do total de 30 mil fotos, cerca de 20 mil são feitas por Lázaro. O restante se divide entre parceiros com o Jônatas Conceição (falecido em 2009), um dos diretores do Ilê Aiyê e parte dos fundadores do Movimento Negro Unificado na Bahia. Outro nome é Luiz Orlando, que morreu em 2006 e ficou conhecido pela militância no cinema negro. Lázaro Roberto cuidada das fotografias sozinho e conta com a ajuda de parceiros como o sobrinho José Carlos.

Você pode ajudar Lázaro a manter a cultura afro-baiana viva em um país onde o racismo é regra. Eles estão ainda com uma campanha de financiamento coletivo e os detalhes estão aqui . 

E o Movimento Negro não se constrói sem mulheres

Falta muita coisa para que o Zumvi se projete, se firme dentro dessa cidade. Agora, a gente precisa muito de um espaço. Funcionamos numa pequena sala no fundo quintal da minha casa. Na nossa batalha e luta, temos conseguido pouca coisa do governo por conta da burocracia do Estado. Por isso, estamos procurando outros setores e pessoas. Estamos em campanha de financiamento coletivo, mas não conseguimos atingir nem 20% da meta. Estamos em busca de parceria com o pessoal o Movimento Negro. Muitos nos apoiam, principalmente os mais antigos, mas ainda não conseguimos botar o acervo no lugar que ele tem que chegar.


Fotos: Lázaro Roberto/Divulgação/fonte:via

Fotos raras mostram o dia a dia dos Panteras Negras nos anos 1960 e 1970

Era 1967 e Stephen Shames ainda era um jovem fotojornalista dedicado a usar seu talento com a câmera para chamar atenção para questões sociais que precisavam ser debatidas. E um encontro com Bobby Seale foi fundamental para impulsionar a carreira de Stephen.

Bobby foi um dos fundadores do Partido dos Panteras Negras, uma organização para defesa dos direitos de pessoas negras nascido durante o Movimento dos Direitos Civis.

Foi Bobby quem pediu que Stephen se tornasse fotógrafo oficial dos Panteras, documentando as atividades diárias do grupo com um grau de intimidade que nenhum outro fotojornalista conseguiu atingir – o jovem era a única pessoa de fora do Partido com acesso direto aos ativistas.

À Vice França, Stephen declarou que seu objetivo era “mostrar os Black Panthers a partir de dentro, não simplesmente a documentar as suas lutas, ou a intenção de pegar em armas”, para “revelar o que acontecia nos bastidores e fornecer um retrato mais completo dos ‘Panteras’”.

Algumas das icônicas fotografias clicadas por Stephen estão em exibição em Lille, na França, dentro de ume vento chamado Power to The People. Confira algumas imagens que a Galeria Steven Kasher liberou para divulgar a obra de Stephen Shames.

Fotos por Stephen Shames (Cortesia da Steven Kasher Gallery)/fonte:via

Quem é Matthew Henson, o explorador negro do Polo Norte que história tentou apagar

Matthew Henson nasceu em 1866 em Baltimore – EUA e, pode ter sido o primeiro homem a alcançar o Polo Norte, um feito muito mais complexo de ser realizado no início do século 20, porém ignorado pelo fato de ser negro.

O explorador ficou órfão de pai e mãe ainda criança e, aos 13 anos passou a trabalhar em um navio, onde o capitão o ensinou a ler e a escrever. Anos depois, quando trabalhava como balconista, o destino bateu à sua porta e ele conheceu o engenheiro da marinha norte-americana Robert E. Peary, que o acompanhou em suas aventuras durante 2 décadas e, inclusive, era quem fazia as fotografias.

Em 1900 a dupla já havia viajado para o norte mais do que qualquer pessoa na terra, chegando a quebrar o próprio recorde. Acredita-se que finalmente alcançaram o Polo Norte em 1909, acompanhados de quatro esquimós.

Por quase um século, as grandes contribuições de Henson às explorações polares foram praticamente esquecidas, em favor de Peary, que inclusive chegou a afirmar que jamais teria conseguido sem ele. Foi apenas em 2000 (ele morreu em 1955), que ele recebeu uma homenagem póstuma, a Medalha Hubbard, a mais importante da revista National Geographic.

Quantas pessoas que marcaram a história da humanidade foram e continuam sendo deixadas de lado pelo fato de serem negras? Hoje, o mundo conhece a importância de Matthew Henson, que em 1996 foi homenageado através de uma embarcação, que recebeu o nome de Henson em sua homenagem. Esperamos que, homenagens como esta continuem fazendo parte de nosso dia a dia, cada vez em maior frequência.

Fotos: Robert E. Peary – National Geographic/fonte:via

Único técnico negro na Copa, senegalês Aliou Cissé pede mais chances aos treinadores africanos

Há incontáveis jogadores negros que deixaram seus nomes marcados na história do futebol. Mas, se pararmos para pensar em quantos técnicos ou dirigentes negros atuam ou atuaram nos clubes ou seleções de elite mundo afora, dificilmente lembraremos de mais que um punhado de nomes.

Na Copa de 2018, por exemplo, só há um treinador negro comandando alguma das 32 equipes que disputam o Mundial. É Aliou Cissé, senegalês que foi capitão de sua seleção em 2002, quando Senegal fez sua primeira participação, chegando às quartas de final (um recorde entre os africanos), e agora busca façanha parecida do lado de fora do campo.

Sou o único técnico negro da Copa, é verdade. Mas esse tipo de debate me incomoda. Acho que o futebol é um esporte universal e que a cor de sua pele importa pouco”, comentou Cissé em entrevista coletiva, antes de defender a qualidade de treinadores africanos.

Vale lembrar que das cinco seleções africanas que disputam a Copa, apenas Senegal e Tunísia (treinada pelo tunisiano Nabil Maâlou) têm técnicos nascidos no continente. A Nigéria é comandada por um alemão, enquanto um argentino e um francês treinam Egito e Marrocos, respectivamente.

Temos uma nova geração (de técnicos) que está trabalhando, dando seu máximo. Não somos apenas ex-jogadores, mas também somos ótimos taticamente e temos o direito de estar entre os melhores treinadores do mundo”, afirmou.

Ao chamar a atenção para a qualidade dos treinadores africanos, ele fez questão de citar Florent Ibengé, técnico da República Democrática do Congo, que não se classificou para a Copa, mas é a atual campeã continental. “Você vê muitos jogadores africanos nos grandes clubes europeus. Agora precisamos de técnicos africanos para que nosso continente continue avançando”, disse.

Além de único treinador negro na Copa, Cissé é também o mais jovem (42 anos) e o que recebe o menor salário: de acordo com o canal de TV holandês Zoomin, seu ganho anual é de 200 mil euros, o equivalente a cerca de 870 mil reais.

Na comparação com os estrangeiros que treinam Egito, Nigéria e Marrocos, a diferença é considerável: o argentino Hector Cúper fatura 1,5 milhão de euros (R$6,5 milhão) no Egito, o francês Hervé Renard leva 780 mil euros (R$ 3,4 milhão) por ano em Marrocos e o alemão Gernot Rohr recebe 500 mil euros (R$ 2,1 milhão) na Nigéria – sempre em salário anual.

No século 16, escravo moçambicano se tornou o 1° samurai negro do Japão

Os samurais têm grande destaque ao se pensar na cultura ancestral japonesa, mas pouca gente conhece a história de Yasuke, o primeiro – e provavelmente único – negro a ter recebido a honra de portar uma katana, a espada típica dos guerreiros nipônicos.

Como viveu no século 16, há poucos registros oficiais sobre sua trajetória, mas acredita-se que ele era um escravo nascido em Moçambique que chegou ao Japão acompanhando Alessandro Valignano, um jesuíta italiano, pioneiro na introdução do catolicismo no oriente.

Foram as cartas trocadas entre Valignano e outro jesuíta, português Luis Frois, que garantiram que ao menos uma parte da história de Yasuke sobrevivesse à passagem do tempo.

De acordo com as comunicações entre os dois missionários, Yasuke servia os jesuítas no templo onde eles viviam, mas sua aparência e tamanho incomuns chamaram tanto a atenção da população de Kyoto que multidões se aglomeravam em frente à moradia para tentar vê-lo.

De acordo com as comunicações entre os missionários, Yasuke media cerca de 1,88m, uma altura que até hoje seria incomum no Japão, e com certeza lhe garantia muito destaque por volta de 1580, quando a missão de Valignano aconteceu.

A história do jovem negro, na época com cerca de 24 anos, chamou a atenção também de Oda Nobunaga, um Daimiô poderoso, que governava boa parte do país e acreditava na importância de unificar as dezenas de províncias japonesas.

Nobunaga fez questão de conhecer o visitante exótico, ficando também impressionado com sua altura e com a cor de sua pele – de acordo com as correspondências guardadas por Luis Frois, o Daimiô chegou a ordenar que Yasuke tirasse as roupas e se lavasse, imaginando que ele estava pintado.

A força de Yasuke – cujo nome original ou o nome cristão não são conhecidos – fez com que Nobunaga afirmasse que ele tinha a força de dez guerreiros comuns, e diz-se que foi ele quem “rebatizou” o africano. Há quem suspeite que Yasuke seja uma adaptação do nome com o qual ele se apresentava anteriormente.

Não se sabe exatamente como, mas a simpatia de Yasuke fez com que Nobunaga o transformasse em escudeiro, e posteriormente lhe concedesse a honra de ser um guerreiro samurai. Sua lealdade garantiu que Nobunaga o considerasse um de seus braços-direitos, providenciando uma moradia individual e até o privilégio de jantar com o Daimiô.

Em 1582, não muito tempo depois de Yasuke atingir o status de samurai, o general Akechi Mitsuhide traiu Oda Nobunaga e atacou seu castelo. Após se ver cercado e sem chances de vitória, Nobunaga cometeu o haraquiri, e seu filho, Oda Nobutada, assumiu a responsabilidade de tentar defender o território.

Yasuke se manteve leal à família, mas sem sucesso. Depois de acabarem com todos os focos de resistência, as tropas de Mitsuhide tomaram conta do castelo. Yasuke se rendeu e ofereceu lealdade ao novo Daimiô, mas Mitsuhide não se empolgou com a ideia.

Assim, o samurai Yasuke foi enviado de volta a Kyoto para viver junto dos missionários jesuítas, onde passou o resto de seus dias. Um filme sobre a trajetória de Yasuke, chamado The Black Samurai, foi anunciado em 2017, mas ainda não há previsão de lançamento.