Afuá, a Veneza amazônica

NG - Cheias e secas não alteram o dia a dia dos moradores de Afuá,

À media que ganho velocidade, o calor diminui. O incômodo causado pelo suor se dissipa com o vento que bate no rosto. Pedalar ajuda a organizar as ideias, refresca os pensamentos. É um exercício que minimiza minha condição de forasteiro. Demorei a perceber isso. Para entender um pouco melhor das coisas do trânsito e da geografia locais, até aquele dia eu insistia em andar a pé, atônito em meio ao rush de duas rodas e a algaravia de assobios, o código usado pelos ciclistas para avisar aos transeuntes de sua passagem. Depois de sofrer por dias com o clima quente, o raciocínio traindo-me e o corpo sem querer sair debaixo do chuveiro frio, começo a me sentir confortável. Por causa da bicicleta.

O veículo faz parte da identidade de Afuá, no noroeste da ilha de Marajó, por cujas ruas pedalo cada vez mais rápido. Nessa “Veneza marajoara”, a bicicleta é uma resposta criativa a uma limitação da cidade – ou uma vantagem, a depender do ponto de vista. Como foi erguida sobre plataformas de madeira, de forma a não ser inundada pelas cheias dos três rios que a cercam, Afuá provavelmente é o único município brasileiro onde carros e motos são proibidos em toda sua extensão. Isso a tornaria a única cidade livre de emissões de gases de carbono, não fosse a energia elétrica gerada da queima de óleo diesel. Não é difícil crer que, à exceção dos bebês, cada um dos 35 mil habitantes de Afuá tenha uma bike.

A bicicleta é protagonista da existência de um afuaense desde seu nascimento. Pelas ruas, a cena é comum: uma mãe carrega seu bebê no colo enquanto, ela mesma, é conduzida na garupa. Um garoto de 4 anos anda de pé ali atrás, apoiando-se no ombro do pai ou do irmão mais velho. Aos 7, já pedala modelos grandes para ir à escola ou ao jogo de futebol. Na adolescência, a bike o conduz a passeios com a primeira namorada. Adulto, segue para o trabalho ou para casa até sair para pedalar com a mulher grávida e, no futuro, com o filho, que, por sua vez, aos 4 anos…

Essa era a doce vida do morador Sarito Souza, de 45 anos, que adorava carregar todos os filhos a bordo de sua Monark barra dupla circular. O problema é que o número de rebentos foi aumentando e, quando chegou a oito, a bicicleta já não dava conta. Premido pela necessidade, Souza teve a grande ideia: soldar duas delas – uma na outra. Instalou bancos mais confortáveis e uma cobertura para proteger do sol e da chuva, duas forças que competem em intensidade na Amazônia. Nascia assim, em 1995, o “bicitáxi”. Quando os filhos estavam na escola, ele fazia corridas para quem não tivesse bicicleta. Durante a semana, faturava até 40 reais por dia. Nos sábados, domingos e feriados, a renda dobrava.

Com o tempo, sua criação virou mania nas ruas da cidade. Hoje, várias oficinas fabricam o veículo, chamado por alguns afuaenses empolgados de “carro”. Certos modelos chegam a ter carenagem de jipe em miniatura. Ninguém, porém, jamais sucumbiu aos combustíveis fósseis. Nem aos pequenos motores elétricos. Por mais elaborados que sejam, os bicitáxis usam apenas a energia física de seus donos. (Novos modelos servem para o transporte de açaí, indiretamente seu combustível, já que é a base da alimentação dos moradores, assim como o camarão.)

Por mais que tenha contribuído para a economia local, Souza não detém patente, apenas a fama pela invenção. Volta e meia é visitado por equipes de TV, revistas e jornais para exibir a inovadora tecnologia marajoara. Uma de suas fontes de renda são os equipamentos de som que customiza para os bicitáxis. Os alto-falantes, depois de instalados, anunciam ofertas, produtos e aspirantes a políticos em época de eleição. Mas a principal serventia é permitir ao condutor ouvir, enquanto pedala, o tecnobrega, o zouk e as versões eletrônicas da música sertaneja que ali são adaptadas ao ouvido local: ganham mais velocidade, mais graves, mais agudos, mais tudo. As músicas são baixadas de graça da internet por uma população cada vez mais conectada.

NG - Um bicitáxi estacionado em um bar que só vende bebidas destiladas

Um bicitáxi estacionado em um bar que só vende bebidas destiladas. A falta de emprego é uma das razões do alcoolismo. A expansão da cidade pode gerar mais postos de trabalho, assim como agravar os problemas sociais – Foto: Maurício de Paiva

Veículo bonito, equipamento de som potente, computador mais atual: ambições como as de tantos brasileiros. Uma delas, apenas, é imposta pela geografia. Em Afuá, as primeiras bicicletas apareceram nos anos 1970. Até que, nos idos de 1990, vieram as motocicletas. “Quem tinha uma não respeitava nem pedestre nem ciclista”, lembra-se Souza. A proibição veio logo. Além do risco de acidentes e da poluição, as motos – bem mais pesadas que as similares movidas a pedal – desgastavam as passarelas de madeira em menos tempo. Não demoraram a ser banidas.

Na cidade das bicicletas, os endereços não são nem avenidas nem ruas, mas sim rios, igarapés, furos e outras bifurcações fluviais corriqueiras para aqueles que vivem à margem dos rios – no caso, afluentes do Amazonas. Assim, em um sábado ensolarado, Souza leva-me em uma jornada de voadeira (barco de alumínio com motor) ao “interior”, como chamam as comunidades distantes da sede do município. Tais lugares resumem-se a poucas casas à beira de um rio de água cristalina. O tamanho dessas vilas contrasta com a magnitude do ambiente em que estão inseridas, onde só cabem superlativos: Amazonas, a maior bacia hidrográfica do mundo; Marajó, a maior ilha fluviomarinha do planeta. Tudo cercado pela maior floresta tropical da Terra.

Chegamos à vila Tessalônica. Ali, o movimento de avanço e recuo do rio, com frequência, revela fragmentos de cerâmica marajoara, como vasos com grafismos complexos concebidos por povos ancestrais. Sem resgate apropriado, as peças acabam destruídas pela ação da água e do sol. Os guardiões desse tesouro são apenas os moradores – assim como em tantos lugares na ilha de Marajó, onde se encontram vestígios arqueológicos. Logo avisto a parte exposta da boca de uma urna, suficiente para comprovar que ali caberia um crânio e outros ossos humanos.

Não é preciso nenhuma relíquia dessas, porém, para entrar em contato com um modo de vida antigo. O açaí é peça viva do quebra-cabeça histórico da ocupação humana na Amazônia. O fruto, consumido em toda a região ainda hoje, já servia de alimento a civilizações que tiveram seu apogeu na Amazônia por volta do ano 1000.

NG - Os bebês andam de bicicleta no colo das mães em Afuá

Os bebês andam de bicicleta no colo das mães; depois que crescem um pouco, vão na garupa, até poderem ter autonomia para pedalar as próprias bikes. Com a abertura de uma universidade, em 2009, Afuá começa a melhorar a formação de professores e a educação de crianças e jovens.

 

No retorno à vila onde passado e presente se sobrepõem, paramos na casa de Caetano Gonçalves, coletor que mora tão próximo do rio quanto dos pés da fruta, em um arranjo perfeito para colher e vender a mercadoria às grandes embarcações que chegam à porta de sua casa. Ele nos recebe com alegria, embora lamente não estar a nossa espera. “Se tivessem avisado que viriam, eu teria batido açaí para todo mundo”, diz.

A polpa roxa de textura aveludada e sabor marcante é comprada em qualquer esquina de Afuá, em média, a 2 reais o litro. Em 2010, o município produziu mais de 4 mil toneladas do fruto, movimentando cerca de 4,5 milhões de reais. Fonte de nutrientes como cálcio, ferro e potássio, o alimento é ainda mais farto e barato que o camarão de água doce, que alguns moradores vão ao rio, eles próprios, pescar com matapi, uma armadilha feita em fundo de quintal.

NG - O morador Helbson Pantoja atravessa um canal em uma parte nova do município de Afuá

Assim como o açaí, o crustáceo está arraigado na cultura local. Há 30 anos a cidade promove o Festival do Camarão. No fim de julho, a população dobra por causa da chegada de turistas, ávidos pelas atrações musicais e pela “batalha camaroeira” – uma criação mais recente. Nesse embate, as agremiações de camarão Convencido e Pavulagem disputam quem faz a melhor apresentação, com base em vários critérios, nos moldes da festa amazonense do boi de Parintins.

NG - Por um tempo motos foram permitidas em Afuá, mas logo vetadas pelo risco de atropelamento e desgaste das passarelas de madeira

Hora do rush: por um tempo motos foram permitidas, mas logo vetadas pelo risco de atropelamento e desgaste das passarelas de madeira. A cada eleição, os políticos prometem vias mais duráveis, como esta, de concreto

NG - Jovens jogam futebol em um campo coberto de moinha, resíduo de toras, em Afuá

Jovens jogam futebol em um campo coberto de moinha, resíduo de toras. As serrarias são geradoras de emprego, que só devem crescer com a construção de casas e a renovação, a cada dois anos, das passarelas de madeira

NG - Em julho, uma procissão leva boa parte da população às ruas de Afuá

Em julho, uma procissão leva boa parte da população às ruas, com direito a bicitáxi com equipamento de som para os cantos católicos. A cidade foi fundada com uma igreja, mas a população evangélica começa a ganhar espaço.

NG - O açaí, que brota de uma palmeira nativa, é a base da alimentação dos moradores da cidade paraense de Afuá

O açaí, que brota de uma palmeira nativa, é a base da alimentação dos moradores da cidade paraense de Afuá. A distribuição do fruto, claro, é feita por bicicletas.

NG - Um garoto do Camarão Convencido (de verde) surge em uma viela de Afuá

Um garoto do Camarão Convencido (de verde) surge em uma viela de Afuá. No Festival do Camarão, de duas agremiações, a Convencido e a Pavulagem (de vermelho) se enfrentam em uma versão local da festa do boi de Parintins, no Amazonas. O crustáceo é um produto nativo das margens da ilha de Marajó.

NG - Grupo de rap gospel Plenitude Cristã, do bairro Capim Marinho, em Afuá

As letras do grupo de rap gospel Plenitude Cristã, do bairro Capim Marinho, refletem o desejo dos jovens por mais lazer, cultura e pelo fim do preconceito com os moradores da “periferia” do município.

NG - Na vila Tessalônica, em Afuá, agente de saúde faz teste para detectar malária

Na vila Tessalônica, agente de saúde faz teste para detectar malária; se der positivo, o paciente volta para casa com os remédios na mão. Controle mesmo em vilas distantes como essa tem diminuído as mortes pela doença na região.

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Artista chinês cria inacreditáveis pinturas realistas de bikes enferrujadas

Pan Xun é um artista chinês formado pela Lu Xun Academy of Art, que faz pinturas realistas, como se fossem fotos de bicicletas. O pintor dá especial importância aos detalhes: a luz do Sol, a ferrugem da bicicleta ou o ambiente em volta que, na maioria das vezes, são ruas e calçadas.

Veja só:

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Todas as imagens © Pan Xun

Fotógrafo cria série surreal para mostrar a magia do silêncio e dos momentos a sós

A maioria das pessoas associa momentos a sós a um caminho de solidão, tristeza e até depressão. Se em alguns casos, isso acontece (a solidão é um dos grandes males do século XXI), a verdade é que saber estar consigo mesmo é uma grande qualidade, que pode até te tornar mais feliz.

Foi com esse pensamento que o fotógrafo Martin Stranka criou o projeto “I Found The Silence” (“Eu Encontrei O Silêncio”, em português), onde lembra que estar sozinho pode te mostrar algumas verdades sobre você.

De acordo com o artista, o projeto foi fruto de 8 anos de trabalho, além de ser uma espécie de diário de vida. “I Found The Silence” quer conscientizar a sociedade para o fato de estar sozinho não ser necessariamente ruim. Na verdade, o silêncio é um dos momentos mais saudáveis que uma pessoa pode ter consigo.

Veja as fotos e inspire-se:

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Todas as fotos © Martin Stranka

FOTO DO DIA

Não importa quanto custe o seu caminhar se for para fazer amigos vá a onde for e assim será.

 

 Esse artista imortalizou o avô usando suas cinzas para criar imagens incríveis

 

Todos nós somos feitos de poeira cósmica. Por mais boba que essa frase pareça, ela é real, e o fotógrafo Alan Knox decidiu unir poesia à teoria desenvolvida pelo astrofísico Karel Schrijver. 


Knox utilizou as cinzas do avô falecido para criar um projeto de arte. Elas foram dispostas em papel fotográfico, criando uma simulação do próprio universo. Sua intenção principal foi combinar a ideia da morte com a própria filosofia da criação da vida, ele mesmo reconhece que essas duas coisas estão sempre se cruzando: a vida e a morte, o finito e o infinito, tentando transformar nossa existência em uma grande unidade.

“Espalhar as cinzas do meu avô, Duncan Marshall, cremado, em papel fotográfico, me trouxe uma visão sobre como o universo, desde a criação do Big Bang, pode nos remeter a momentos simples da vida, reconectando as sobras dos mortos com a origem de toda a vida”, afirmou o fotógrafo.

Por mais improvável que pareça, o trabalho do artista realmente remete a materiais que constituem nosso universo, como luas, estrelas, asteróides e galáxias. Da próxima vez que você olhar para as estrelas, lembre-se que você e todos os milhões de corpos celestes que te cercam são feitos do mesmo material.

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Todas as imagens © Alan Knox

Fotógrafa retrata a luta do irmão que nasceu menino, mas sonhava ser menina

 
O que nosso gênero representa? Em alguns casos, pode representar muitas barreiras ou mesmo fazer do corpo uma verdadeira prisão. É o que acontece quando uma pessoa não se identifica com seu gênero de nascimento e precisa fazer a transição para o gênero oposto.
A artista israelense Rona Yefman conviveu de perto com essa situação, quando seu irmão Gil passou a viver como mulher, durante os anos 1990. O período da adolescência de Gil foi conturbado, já que a transição não era bem aceita em Israel na época. Apesar disso, Rona conta que seus pais sempre o apoiaram em sua decisão, que foi acompanhada de perto pelas lentes da fotógrafa durante 14 anos.
O projeto ganhou o nome de “Let it Bleed” (“Deixe Sangrar”, em tradução livre) e retrata a maneira como podemos criar nosso próprio mundo ao invés de estar sujeitos a uma realidade que nos foi imposta. “A câmera é uma ferramenta muito boa para o auto conhecimento, e ao tirar fotografias nós estamos nos descobrindo, criando personagens e contando uma história“.
Depois de um tempo, Gil decidiu fazer a transição de volta para homem pois, segundo ele “o corpo feminino não é diferente da prisão do corpo masculino“. Todo o processo está documentado nas fotografias abaixo, onde é possível acompanhar as transições entre os gêneros:
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Eles podem te falar sobre liberdade individual, mas quando eles vêem um indivíduo livre, isso irá assustá-los.
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Todas as fotos © Rona Yefman

Como uma fotografia mudou a vida de um garoto sem teto que usava a luz de lanchonete para fazer a lição de casa

A fotografia de um garoto sem teto de nove anos da cidade de Mandaue, nas Filipinas, estudando sob a luz de um Mc Donald’s local causou comoção nos últimos dias. A imagem deDaniel Cabrera foi registrada pela estudante de medicina Joyce Torrefranca, que, ao se emocionar com aquela cena, divulgou a foto em sua página no Facebook no dia 23 de junho.

A mensagem de Joyce foi compartilhada por milhares de pessoas nas redes sociais e, em meio a onda de solidariedade, o garoto, que costumava fazer a lição de casa todos os dias sob a luz do restaurante de fast food, conseguiu uma bolsa de estudos e, com a ajuda da polícia, igreja e da sede do bem-estar social da região, recebeu alimentos, material escolar, dinheiro e outros suprimentos para ele e sua mãe, Christina Espinosa, que perdeu o marido em 2013 e vive apenas com Daniel.

Dias depois, a garota escreveu em sua página “Nunca pensei que uma fotografia pudesse fazer tanta diferença. Obrigada a todos por compartilhar esta imagem. Com isso, fomos capazes de ajudar Daniel a conquistar os seus sonhos. Espero que a história de Daniel continue a sensibilizar os nossos corações”.

A mãe do garoto declarou: “Estamos muito felizes. Eu não sei o que vou fazer com todas estas bênçãos” e que “agora, Daniel não terá que sofrer para terminar seus estudos”.

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Imagens via Facebook